‘O povo é feito de marionete’


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FIM DE CARREIRA - Vereador há 26 anos, Luiz Carlos Fernandes diz que deixa a vida pública ao final de seu mandato e se diz decepcionado com a política local, principalmente com a Câmara Municipal. “Falta interesse”
FIM DE CARREIRA - Vereador há 26 anos, Luiz Carlos Fernandes diz que deixa a vida pública ao final de seu mandato e se diz decepcionado com a política local, principalmente com a Câmara Municipal. “Falta interesse”
<p>Vinte e seis anos e seis mandatos consecutivos depois de ter estreado na Câmara de Franca, o vereador Luís Carlos Fernandes (PSDB) vai deixar a vida política. A decisão de não concorrer à sua sexta reeleição sustenta-se, segundo ele próprio, na decisão de se dedicar mais à sua vida particular e à sociedade em uma empresa de serigrafia para embalagens de cosméticos, com seus 20 empregos. </p><p> <br />Ter maior controle da vida pessoal pode ser o pretexto que esse administrador de empresas e representante comercial aposentado de 59 anos usou, mas a maior razão, explicitada nessa entrevista feita no Comércio da Franca, está no desencanto com a política. Ao reafirmar que a atual legislatura é considerada uma das piores da história e que eventos recentes dentro do Legislativo francano sujaram a imagem da casa, Fernandes acredita que metade dos que lá estão não deverá - ou não deveria - voltar em 2009. </p><p>Ao deixar o PDT, partido ao qual esteve filiado durante 23 anos, para ingressar no PSDB do prefeito Sidnei Rocha, de ideologia completamente diversa, Fernandes enfrentou, no ano passado, a acusação da ex-companheira de bancada, Graciela Ambrósio, de ter vendido a legenda para o prefeito. Nos processos de cassação abertos pela Comissão de Ética contra os vereadores Marcelo Mambrini (PMN) e Nirley de Souza (DEM), posicionou-se inicialmente favorável à perda de mandato de ambos, mas se contradisse em seguida, elogiando a atividade parlamentar dos colegas. </p><p>Já recentemente, trocou artilharia com a ex-colega Graciela, que chamou a Câmara de “frouxa”. Apesar das farpas, disse que a vereadora é uma revelação no Legislativo. E os elogios a ela se encerram aí. “Não sou de bater boca com vereador e sair abraçado depois. Não tenho sangue de barata”, disse. Confira, nesta Entrevista de Domingo, os principais trechos da entrevista com Luiz Carlos Fernandes.</p><p> </p><p><strong>Comércio da Franca - O senhor disse que um dos motivos que o levaram a tomar a decisão de não tentar a reeleição foi profissional. E os outros motivos? <br />Vereador Luís Carlos Fernandes -</strong> Eu tenho algum desalento em relação à política. Estou decepcionado com o que vem acontecendo, não apenas aqui, mas no País. O político é mal visto, pela corrupção, pelos desmandos. Criminosos de colarinho branco são soltos e a mulher que furta uma barra de chocolate para a neta vai presa. O povo é feito de marionete. Só que a culpa é do povo, do eleitor, porque é ele quem escolhe. Os valores estão alterados. Hoje, a pessoa que tem um pouco de honestidade se sente humilhada com o que acontece na política.<br /></p><p><strong>Comércio - Nos 26 anos de vereança, qual o resumo, crítico, se possível, que o senhor faria de sua atuação?<br />Fernandes - </strong>O campo de atuação do vereador é muito restrito. Nós não podemos legislar em matéria financeira nem em qualquer projeto que envolva finanças. Na maioria das vezes os projetos ficam engavetados. Entra em cena uma luta de plenário, uma indisposição com colegas. Também acontece de projetos serem aprovados e nunca executados. Eu tenho alguns elaborados há mais de 15 anos que nunca saíram do papel.<br /></p><p><strong>Comércio - Isso explica a quantidade de projetos insignificantes e sem qualquer alcance social proposta pelos vereadores?<br />Fernandes - </strong>Veja, eu poderia fazer um projeto mirabolante, bonito para a população, mas que nunca seria aprovado. Então os vereadores lançam mão de projetos que são mais aceitáveis, mesmo sabendo que o prefeito pode vetar ou arquivar. As pessoas cobram projetos dos vereadores, mas não entendem que o cerco se fecha.<br /></p><p><strong>Comércio - Os candidatos de primeiro mandato não têm a menor idéia da margem que têm para atuar...<br />Fernandes -</strong> Não sabem. Por isso é que é necessário se debruçar sobre o Regimento Interno e fazer um estudo para se conhecer minimamente o documento. Recebemos muitas críticas por isso. E aí você vê aqueles que estão se candidatando e prometem que vão fazer isso ou aquilo. Se eu pudesse fazer tudo o que quis, eu seria o rei dos vereadores. Teria feito milhares de projetos, resolvendo o problema de todo mundo. Há muitas dificuldades e limites para isso.<br /></p><p><strong>Comércio - O senhor acha que houve evolução ou involução da qualidade da atual Câmara de Franca em relação ao trabalho que ela presta à sociedade, à qualidade de seus integrantes?<br />Fernandes -</strong> Ela tem o seu perfil, tem sua qualidade. Mas eu entendo que a Câmara, quando eu me elegi, foi a melhor de Franca. Vereadores que em sua simplicidade mostravam grande conhecimento político. Eu acho que falta interesse pela legislação, pelo Regimento Interno, pela Lei Orgânica, saber como deve votar, que tipo de projeto pode apresentar. Cada vereador tem que ter sua condição própria de criar seus projetos e apresentar seu trabalho à população.<br /></p><p><strong>Comércio - O senhor possui colegas que não participam, não integram comissões, não apresentam projetos e nem se interessam pelos dos colegas. O senhor já cobrou envolvimento destes vereadores?<br />Fernandes -</strong> Por muitas vezes. Briguei e cobrei isso. Quando fui presidente da casa, eu constantemente chamava a atenção, suspendia a sessão e ameaçava com encerramento por falta de quórum. Eu não aceito isso. O vereador tem um compromisso de um dia, em meio período, para se dedicar aos trabalhos da Câmara. O vereador tem obrigação de estar presente.<br /></p><p><strong>Comércio - Como o senhor acha que a população interpreta as cenas de descaso e desinteresse protagonizadas por vereadores durante as sessões?<br />Fernandes -</strong> Alguns vereadores dizem sim ou não sem nem mesmo saber o que estão votando. De maneira geral existe um total desencanto popular com os políticos. Arrisco a dizer que se o voto fosse facultativo menos de 50% do eleitorado compareceria às eleições. Quem vai pela primeira vez (às sessões) costuma dizer: “mas isso aqui é assim?”. Eu acho deplorável. É falta de respeito com o eleitor.<br /></p><p><strong>Comércio - O senhor acredita que a população se vê bem representada na Câmara de Franca?<br />Fernandes -</strong> Eu acho que quem tem que responder isso é a própria população. Porque se eu responder negativamente, eu me colocaria entre aqueles que estão lá e não fazem muito. Acho que se o vereador não correspondeu às exigências do eleitor não devia ser reeleito.<br /></p><p><strong>Comércio - O senhor se pronunciou a favor da cassação dos vereadores Marcelo Mambrini e Nirley de Souza, em recentes episódios envolvendo os dois. Sua opinião, de que eles deveriam ter sido cassados, ainda se mantém?<br />Fernandes - </strong>Sim. Eu acho que eles deveriam ser sido cassados. Ninguém pode passar impune. Não tem outra saída. No caso do Nirley, não houve provas cabais de que ele estivesse cometendo algo errado. Na vez do Mambrini, houve falhas fragrantes da Comissão de Ética, que pediu arquivamento do processo sem ouvir a denunciante e o Ministério Público. Repudiei esse procedimento. A Câmara falhou com a sociedade. Ficou o promotor Paulo Borges sozinho, numa situação incômoda para ele.<br /></p><p><strong>Comércio - O senhor disse que os vereadores da base que sustenta o Executivo na Câmara teriam uma cota de caminhões de terra. O “mensalinho da terra” existiu?<br />Fernandes -</strong> Foi uma palavra mal colocada por mim. Em momento algum disse que existia cota. Apenas foi elaborada uma quantidade de terra que servia para os vereadores atenderem aos pedidos de quem os procurasse. Os pedidos são analisados pela Prefeitura. É uma inverdade essa acusação. Até os vereadores da oposição retiram seus caminhões de terra.<br /></p><p><strong>Comércio - É uma relação legítima?<br />Fernandes -</strong> Eu vejo que sim, desde que façam uma avaliação se a pessoa realmente necessita. <br /></p><p><strong>Comércio - Mas o vereador fatura politicamente em cima disso...<br />Fernandes -</strong> Não acredito nisso, não. Não acredito que tenha força para garantir voto de forma alguma.<br /></p><p><strong>Comércio - É sabido que muitos políticos defendem seus mandatos por causa dos salários que recebem. A Câmara foi um ganha-pão para o senhor?<br />Fernandes -</strong> Nunca foi. Sempre tive minha vida profissional própria. Sempre fui administrador de empresas e me aposentei com 35 anos de contribuição para o INSS, aos 53 anos. Faz sete que estou aposentado. Mas se dissesse que não me ajudou, o salário de vereador, eu estaria mentindo. O salário é bom e se você fizer uma comparação com outras colocações no mercado, R$ 3.200 não são nada mal.<br /></p><p><strong>Comércio - Poucos meses atrás, o senhor entrou em confronto com a vereadora Graciela Ambrósio, que acusou a Câmara de ser frouxa. A discussão com ela ficou da porta para dentro?<br />Fernandes -</strong> Sempre que eu fui para a tribuna para defender o meu ponto de vista foi porque eu não concordava com determinadas críticas e agressões que mexem com minha moral e com minha dignidade. E eu me senti agredido por não me considerar um vereador frouxo e fui me defender. Outros vereadores respondem por si. Eu não sou vereador que depois de uma discussão sai abraçado com o outro. Não tenho sangue de barata. Não guardo raiva da doutora Graciela, só que isso que ela falou me afetou. Hoje não conversamos. Se for o caso de um dia precisar discutir algo de relevância posso conversar. Mas relacionamento pessoal não tenho nenhum.<br /></p><p><strong>Comércio - Um assessor do prefeito Sidnei Rocha acompanha todas as votações e anota como cada vereador vota. Muitos se sentem pressionados. A Câmara atua com independência em relação à Prefeitura ou é subserviente?<br />Fernandes -</strong> Esse trabalho mostra a preocupação do prefeito em relação à aprovação dos seus projetos. Essa pessoa liga para todos os vereadores, assim que recebem a ordem do dia da sessão. São contatos para esclarecer dúvidas sobre os projetos. Essa é a função dele. Na gestão do Partido dos Trabalhadores, durante os oito anos, era a mesma coisa, com a diferença que iam mais pessoas, incluindo secretários municipais. Eu nunca censurei isso. É uma prática normal.<br /></p><p><strong>Comércio - Tivemos nesse primeiro mandato de Sidnei Rocha algumas denúncias contra o seu governo, ilustradas no caso das obras do Córrego dos Bagres, na subcontratação de empresas ligadas à Emdef, que resultou em um acidente com trabalhadores feridos e um morto, a saída de funcionários do primeiro e segundo escalões, entre outras. Em que momento o senhor exerceu seu papel de fiscal do Executivo?<br />Fernandes - </strong>Não apenas eu, mas a base que sustenta o prefeito esteve diversas vezes no gabinete do prefeito cobrando explicações. Em relação às denúncias que foram feitas, a oposição existe exatamente para isso. O papel da oposição é esse. Mas nós temos cobrado. Embora seja da situação, votei contrariamente a muitos projetos, defendendo meu voto na tribuna e explicando os motivos. Não é porque sou do partido do prefeito que vou votar tudo o que ele quer. <br /></p><p><strong>Comércio - Outro desentendimento com a vereadora Graciela, no ano passado, ocorreu por questões partidárias. Ela o acusou de entregar o PDT para o prefeito. Logo depois, o senhor se filiou ao PSDB. Que conveniência o levou a trocar de partido?<br />Fernandes -</strong> A vereadora cometeu uma injustiça, pois sabia que o PDT em Franca não existia mais. A comissão provisória foi destituída e, sendo assim, foi assumida pela executiva do partido em São Paulo. Sabendo do prestígio do prefeito, a executiva ofereceu o apoio a Sidnei Rocha. Eu carreguei o PDT em Franca. Na última eleição, com dinheiro do meu bolso, dei 300 mil santinhos para cada candidato a vereador. Por isso não aceito que ela tenha dito que eu entreguei. A vereadora não participou de nenhuma reunião com os integrantes do partido e me acusou de leiloar o PDT. Foi aí que nosso relacionamento começou a se estremecer.<br /></p><p><strong>Comércio - Sua reação ao nome da vereadora demonstra muito ressentimento.<br />Fernandes -</strong> Não é isso, não. Deixando as farpas de lado, ela é trabalhadora e consciente. Ela abraçou seu cargo e faz jus a ele. No início eu a orientava, porque ela não sabia nem como pedir voto. Embora tenha um gênio muito forte, ela é uma revelação dentro da Câmara.<br /></p><p><strong>Comércio - Quantos vereadores dessa legislatura merecem se reeleger?<br />Fernandes - </strong>Eu tenho ouvido nos bastidores que essa é a pior Câmara dos últimos 30 anos. Acredito que haverá uma renovação grande porque o povo está mais politizado. O desalento da população será responsável por essa mudança. Eu diria que a metade não volta.<br /></p><p><strong>Comércio - Se Sidnei Rocha for reeleito e convidá-lo, o senhor aceitaria assumir uma secretaria?<br />Fernandes -</strong> Não aceitaria. Estou saindo definitivamente da vida política. Agradeceria qualquer convite, mas eu decidi que quero ficar fora. Quero cuidar da minha vida. A política, a partir do ano que vem, vai fazer parte do passado.<br /></p>

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