Causa e efeito


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Anos 70, Bar do Dito, em Ituverava. Dois homens jogam uma partida de sinuca; entra um senhor de outro bairro, meio embriagado, e, de forma desafiadora, arrasta com os braços as bolas para as caçapas. Vi um ódio mortal no semblante dos dois jogadores, que, se resolvessem agredir o provocador, certamente o matariam. Adiantando-me uns segundos em pensamento, vi-os surrarem-lhe impiedosamente. Mas não. Eles respiraram fundo, ficaram parados e, apesar da raiva, conseguiram conter-se. Concluíram, creio, que a reação agressiva (efeito) era incompatível com a causa (interrupção do jogo) e deixaram pra lá; se a causa foi desagradável, ficaria tudo muito pior se eles fizessem o que em princípio tiveram vontade. Toda ação provoca uma reação, que pode desencadear outras. A reação pacífica reduz e até elimina o fator de atrito, evita que o conflito ganhe maiores dimensões. Essa coisa de não levar desaforo para casa precisa ser bem trabalhada. Muitas vezes a insolência ou o atrevimento vem de pessoas que não merecem nossa perda de tempo nem tampouco do nosso controle emocional. Nesses casos, não vejo motivo para ‘entrar na delas’. É melhor ignorar. É essencial tentar enxergar as conseqüências dos atos antes de praticá-los, saber que tal conduta leva a tal resultado, buscar entender o funcionamento e a dinâmica das coisas; agir em conformidade com as normas, como meio de reduzir o caminho e o tempo entre o ponto de partida e o de chegada, entre o desejo e o objetivo. Quem sai de casa para o trabalho quer chegar ao trabalho e vice-versa. Voltando de carro para casa no fim do dia, o que é melhor? Chegar bem, abraçar os entes queridos e desfrutar do aconchego do lar ou ir para uma Delegacia de Polícia e perder horas preciosas por causa de uma briga ou um acidente de trânsito? Assim, quanto mais cautela ao volante, quanto mais desarmado o espírito, maior a probabilidade de chegar bem ao destino. Sempre há causas para desviar do rumo. Antes de fazer certas coisas, deve-se pensar bem se vale a pena, se são mesmo necessárias, se não significa criar problemas e gerar perda de tempo. Por si só, certos erros já conduzem a situações indesejadas, que para serem revertidas tomam tempo precioso, que poderia ser aproveitado com atividades mais proveitosas ou prazerosas. O verdadeiro tempo perdido, e irrecuperável, é o que se passa tentando corrigir erros, principalmente aqueles bem primários. Por isso certos atos insensatos são o que se chama ‘andar pra trás’, atraso de vida. Em verdade, perde-se tempo em dobro, ou seja, aquele gasto para fazer a besteira e aquele que se leva respondendo pelas conseqüências. Isso deve levar a uma reflexão sobre como realmente se deve utilizar o tempo. Desperdiçar tempo é desperdiçar vida. O indivíduo mais livre é o que tem menos pendências para resolver, o que faz o que deve fazer, quando precisa fazer e abre caminho para andar sem amarras. Enxergar um pouco à frente ajuda a filtrar os desejos e a afastar aqueles de efeitos maléficos, aqueles que são maiores do que o objeto desejado, aqueles que podem jogar por terra coisas mais valiosas que já possuímos. Compreender bem a relação de causa e efeito, e agir segundo essa compreensão, é meio caminho andado para resistirmos às influências negativas e permitir que a nossa vida possa fluir sem atrapalhar a dos outros, é a porta para a liberdade; é, enfim, o que se espera de nós, seres humanos, na nossa condição de animais racionais. Paulo Pereira da Costa Promotor de Justiça, autor do livro ‘Pensando na Vida’ - paulopereiracosta@uol.com.br

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