O caçador


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Ao contrário do garotinho Hassan que saía à caça das “pipas” que flutuavam e caíam do céu depois de terem cortadas suas linhas, e as encontrando, como nos traz a bela obra O Caçador de Pipas, coisa diferente aconteceu com conhecido meu que precisou iniciar uma verdadeira caça desafiadora na cidade: um caminhão-pipa. Ele acreditava ser possível adquirir alguns litros de água, empreitada que se tornou, como dizia o saudoso apresentador Athayde Patrese, “simplesmente um luxo” ter água em casa. Disse-me o caçador de caminhão-pipa que era véspera de casamento da prima de sua esposa, e que ficou incumbido de hospedar em sua casa parte da parentela que veio de muito longe para testemunhar o enlace. Ao todo eram cinco hóspedes, incluindo a sogra. Já era quinta-feira quando chegaram os convidados. Segundo ele, sua caixa d’água estava abastecida pela metade, mas ficou tranqüilo pois havia escutado no noticiário que tudo estaria sanado no final daquele mesmo dia. Dormiu crendo que a água retornaria até despertar na manhã seguinte para um pesadelo, que se iniciaria com a sogra vociferando no banheiro: “secou a água! Alguém traga um balde d’água pra eu jogar aqui!”. Aquele era o seu dia, e estava apenas começando... Contou o rapaz que ligou para seu chefe conseguindo liberação para ir trabalhar somente à tarde. A sua missão era única naquela manhã: a de encher a caixa d’água o quanto antes, caso contrário, segundo ele, teria problemas indescritíveis. Pelas ruas de seu bairro saiu em seu Monza tubarão, levando no banco traseiro baldes, latas, panelas, garrafas plásticas e tudo que tivesse fundo e que pudesse armazenar o líquido. Parando para se informar numa mercearia do bairro recebeu a informação que noutro bairro havia um caminhão-pipa. Para lá fincou, cruzando ruas na vertical, horizontal, seguindo avenidas do começo ao fim, varrendo tudo com os olhos da esperança, e nada de caminhão-pipa. Seu desejo se tornava tão consumidor que ao longe avistou um caminhão-tanque e pensando que era um pipa chegou a tremer e ficar taquicárdico. Nunca imaginara o quanto poderia ser vital um caminhão-pipa em sua vida, e aquilo parecia estar fora de seu alcance... As horas passaram e teve que retornar como um fracassado para casa, incapaz de conseguir alguns litros de água em pleno século XXI. Ao voltar nem mesmo pôde usar seu banheiro, interditado temporariamente; constrangimento que um balde d’água acabaria facilmente com o “problema” lá... depositado. Aquele dia para ele foi cruel, ainda mais para quem estufava o peito e gostava de dizer que vivia numa cidade desenvolvida do Estado de São Paulo quando de suas visitas à terra natal ao Norte do País. Seria inevitável sair ileso dessa história; teve que engolir, e sem água, as críticas proferidas por sua sogra pelo despreparo emergencial daquilo que ele dizia ser “desenvolvido”: “lá, fio, quando falta água, tem os açudes e os artesianos da prefeitura. Avisa aí os “desenvolvidos” que só furar buraco na terra que encontra água para reserva”. Depois da caçoada e do sabão da sogra, o jeito foi mesmo buscar água na velha mina. Caçador de caminhão-pipa, nunca mais, já que é possível encontrar um... Ricardo Veríssimo Júnior Funcionário público, ex-conselheiro da Saúde e deste jornal

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