Um dos maiores problemas de quem se dedica à produção cultural no Brasil, País de dimensões continentais, é a distribuição. Em muitos casos, ela custa mais caro do que o próprio produto e na impossibilidade de colocá-lo aos olhos do público na maioria das cidades brasileiras e em alguns países, é preferível ao produtor vendê-lo por uma ninharia a sacrificar a saúde em esforços que o deixam nervoso e lhe sacrificam a saúde.
Em 1951, a Companhia Cinematográfica Vera Cruz produziu, em São Bernardo, o filme O Cangaceiro, de Lima Barreto, vencedor do Festival de Cannes. Tratava-se da maior produção da companhia idealizada por Franco Zampari, que tentou fazer na cidade do ABC uma Hollywood paulista com importação de maquinários e contratação de técnicos e artistas do porte de Anselmo Duarte.
Mas saía caro e produzia prejuízo a maioria dos filmes, inclusive O Cangaceiro, que rodou em algumas capitais e cidades médias não o necessário para que a companhia cinematográfica extraísse o lucro suficiente para cobrir o investimento e remunerar os artistas.
Para complicar, em 1951, as comunicações telefônicas, rodoviárias e aéreas eram precárias e tornavam ainda mais difícil a distribuição. A saída da Vera Cruz foi vender os direitos do filme à distribuidora americana Colúmbia, que o distribuiu nos Estados Unidos e na Europa, com novo título, Os fora-da-lei e rebatizou todos os atores de forma a fortalecer a idéia de que era uma produção de Hollywood.
Naqueles anos o autor brasileiro mais vendido inclusive no exterior era Jorge Amado, mas revela ignorância no assunto quem pensa que a distribuição dos seus livros estava sob a responsabilidade única dos editores. Quem os ajudava a distribuir os livros de Jorge Amado era o Partido Comunista, de cuja doutrina o autor baiano se tornara um fervoroso adepto a ponto de escrever a vida de Luiz Carlos Prestes (O Cavaleiro da Esperança), obra muito difundida na antiga União Soviética, como material de divulgação.
Quando Jorge soube dos crimes de Josef Stalin revelados por Nikita Kruschev, e saiu do Partido Comunista, a distribuição dos seus livros já estava consolidada. O Partido Comunista também ajudou a sua jovem militante Rachel de Queiroz a divulgar O Quinze no Brasil, depois que ela se desligou da legenda a exemplo de Jorge Amado, não conseguiu nos países comunistas o sucesso alcançado no Brasil porque o Partido Comunista não deixou.
Hoje, ou o autor ou produtor ou seja o que for é ligado a uma sólida empresa distribuidora ou o seu produto dependerá exclusivamente dele e da sua saúde para alcançar o público, porque a distribuição continua um problema, aliás, o maior de todos os problemas de quem se dedica à indústria da cultura.
Carlos Laranjeira
Jornalista e autor de livros.
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