O ditado “falar é fácil, fazer é que são elas” define bem a grande distância que há entre saber o que se deve fazer e efetivamente fazer o que se deve, ou seja, entre a teoria e a prática. Não raro me surpreendo agindo exatamente como havia prometido a mim mesmo que não agiria, e então me sinto um lixo. Acho que o nosso nível de frustração ou satisfação é diretamente proporcional à capacidade que temos de cumprir as coisas boas que nos propomos intimamente a fazer para superar as dificuldades que se nos apresentam.
Converter desejos em ações, expressar bons sentimentos, entender as dificuldades dos outros, ter a necessária força para resistir às tentações, aos impulsos, saber conter-se, afastar a ansiedade, ser paciente, etc. requerem equilíbrio emocional. Dificuldades sempre há, principalmente para quem é casado e tem filhos. Quem dera chegar em casa após o trabalho e não encontrar problemas. Mas eles estão lá, esperando. O que no fundo é bom, pois onde não há problema não há vida. Assim, além das questões profissionais, é preciso reservar energia para lidar com os pessoais e familiares. É enfrentando as dificuldades atuais que se obtém fortalecimento íntimo para encarar as que virão. E elas sempre vêm. É um eterno desafio, uma luta constante. Não é fácil, mas como cantam Zé Ramalho e Fagner: “Se fosse fácil todo mundo era/ Se fosse muito todo mundo tinha/ Se fosse raso ninguém se afogava/ Se fosse perto todo mundo vinha/ Se fosse graça todo mundo ria/ Se fosse frio ninguém se queimava/ Se fosse claro todo mundo via/ Se fosse limpo ninguém se sujava...” (Filhos do Câncer).
Não é possível ter noção da gravidade e dos efeitos de certos problemas sem os ter vivido. Toda pessoa tem alguma fragilidade. Ninguém é invulnerável. Em regra, tudo que se faz é para ter algum prazer, alguma satisfação. Ninguém quer sofrer. Porém, uma visão distorcida das coisas leva a um mundo irreal, faz a pessoa crer que está fazendo a coisa certa quando na verdade não está. A garota esbelta ou até mesmo abaixo do peso normal que olha no espelho e se vê gorda está, obviamente, com o senso de percepção afetado. Aí deixa de comer para perder mais peso e fica mais debilitada. É próprio do ser humano buscar a realização de desejos. Mas o limite da normalidade é ultrapassado quando a pessoa perde o domínio dos desejos e passa a ser dominada por eles.
O ser humano não é um engenho com precisão matemática; suas questões não têm soluções prontas; não tem essa de dois e dois são quatro. As soluções precisam ser construídas e muitas levam tempo, exigem persistência e paciência. Não é fácil, e é isso, penso, que faz a vida fascinante. Teoricamente. Certos males aparecem, brotam no vão deixado por alguma fragilidade. Ninguém em sã consciência quer ficar deprimido, nem virar alcoólatra, nem dependente de drogas, nem ter anorexia. Se alguém muito querido tem ou está com algum distúrbio físico e/ou psíquico e requerem cuidados especiais, nós não podemos nos descuidar nem do doente nem de nós. Devemos manter a nossa sanidade se quisermos ser mesmo úteis.
Deixar-nos contaminar pelo desarranjo, ao invés da cura, gera a proliferação da enfermidade. A gente não pode, insensivelmente, pensar que é “frescura” da pessoa, não pode ser linha-dura. Em tais situações é preciso atenção, ter muita ternura, pôr em prática a bondade e dar calor, dar amor, amor por inteiro, amor verdadeiro, transmitir o afeto na sua forma mais pura.
Paulo Pereira da Costa
Promotor de Justiça e autor do livro ‘Pensando na Vida’ – paulopereiracosta@uol.com.br
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