Conversei informalmente, esta semana, com o prefeito Sidnei Rocha. Ele estava rouco, mas não perdeu sua capacidade de fala coerente. Perguntei-lhe objetivamente sobre a questão do desabastecimento operar modificações em sua caminhada rumo à pretendida reeleição.
Ele me olhou e, aí, percebi que, além de rouco, estava também aborrecido, bravo. Afirmou que o problema fará diferença sim, mas que gosta de desafios e que, “cada tropeção, transforma em impulso para o próximo passo”. Alguns minutos depois, envolvido na cerimônia de comemoração dos 20 anos do Senac, brincou com os meios de comunicação dizendo que a pergunta principal que lhe dirigiram, nos últimos dias, versava mais sobre “respingos em sua candidatura” do que o problema do desabastecimento.
Conheço Sidnei. Mesmo com o anúncio, na quinta-feira, sobre a retomada do abastecimento, ele continuava, sim, muito preocupado. Sua rouquidão tendia a aumentar. Se tentasse os jogos de palavras que caracterizam sua ironia – nem sempre fina ironia – nos momentos em que procura relaxar, o cenho carregado o denunciaria: “que m..., que m..., logo agora!!!”.
Imagino as dificuldades de convivência com ele em casa e, principalmente, no trabalho. Quando tem problemas a resolver o prefeito não é, certamente, a melhor das companhias. Imagino, ainda, os tensos encontros que ele e Comparini, o João Baptista, engenheiro superintendente da Sabesp em Franca protagonizaram na semana, discutindo culpas e soluções.
De um lado, Rocha, preocupação política em riste. De outro, o sanitarista transformado em gestor capaz de garantir resultados financeiros para os acionistas da empresa. Em jogo, uma relação de mais de 32 anos – Sidnei herdou a Sabesp em 1983, eleito prefeito depois de ter convivido com a empresa a partir de 1976 quando era vereador – ponteada com grande número de parcerias, principalmente com o superintendente anterior da estatal, José Everaldo Vanzo. Até hoje, ele fala no “Mutirão de Esgotos”, em que os dois convenceram o povo a colocar “mãos-à-obra”, para instalar as galerias em alguns bairros da cidade.
Bem. A água está de volta. Sidnei Rocha será, certamente, capaz de reverter os possíveis “respingos” em sua candidatura. Comparini, passadas as nuvens negras das explicações técnicas, institucionais e financeiras (o MP multará a empresa em R$ 200 mil) que dará a seus superiores em São Paulo, voltará a comandar um time afinado e compromissado com o saneamento básico local. Resta o povo, parceiro ou carrasco segundo as visões dos dois e terceira ótica deste jogo. As próximas contas de água e esgoto e os próximos movimentos deste jogo de xadrez poderão resultar em xeque-mate em 5 de outubro. Preocupações e sede de vingança de todos os lados não faltam.
BASTIDORES - 1
Se no domingo passado a Sabesp tivesse publicado um anúncio contando sobre a manutenção que faria no sistema Canoas e sobre os riscos contidos no processo, poderia ter alertado a população a que se preparasse. Não o fez. E a razão é simples: decisões para publicar uma única linha em meios de comunicação continuam engessadas pela Superintendência de Comunicação em São Paulo. E isso é histórico. A empresa vive apagando incêndios em todo o Estado porque ninguém derruba a decisão de manter as Superintendências regionais longe de resolver seus próprios problemas comunicacionais. É como se fosse um atestado de burrice: fora de São Paulo não há vida inteligente...
BASTIDORES - 2
Na quinta-feira pela manhã, Sidnei Rocha foi enfático, ao amanhecer no local dos problemas da adutora: “quero soluções...”. Foi quando houve a decisão de fazer um sistema de coleta temporário, com canos de aço. Os condutos antigos, de ferro, com mais de trinta anos de uso, instalados em terreno impróprio e incapaz de suportar infiltração de vazamentos, passariam então por um processo mais apurado de recuperação. Houve quem dissesse, mão encobrindo a boca, que “a adutora antiga está condenada”, o que quer dizer: o problema pode se repetir a curto prazo.
BASTIDORES - 3
Ao falar na terça-feira com a secretária Estela, do presidente da Sabesp Gesner Oliveira em São Paulo, auge da crise de desabastecimento, o apresentador da Difusora, Vinícius Araújo ficou surpreso, tão ou mais surpreso que a própria secretária: “Como? Está faltando água em Franca e a cidade está em situação caótica?”. Simples exercício de lógica formal: se a presidência da estatal não sabia de nada até a terça-feira, quem falhou em informar? Pretendia-se, se fosse possível, esconder o problema?
BASTIDORES - 4
Auge do caos. Uma senhora de idade se mune de um recipiente e vai até mina de água na região do City Petrópolis. Escorrega. Cai. Fratura um dos braços. Encontra a solidariedade de estranhos. Podia ser diferente? Podia.
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br
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