Lata d’água na cabeça


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Lata d’água na cabeça / Lá vai Maria / Lá vai Maria / Sobe o morro e não se cansa / Pela mão leva a criança / Lá vai Maria / Lava a roupa lá no alto / Lutando pelo pão de cada dia / Sonhando com a vida / Sonhando com a vida do asfalto / Que acaba onde o morro principia. Depois de uma semana que promete entrar para os anais da história da cidade, nada melhor pra começar o dia do que uma bela marchinha de Carnaval, daquelas da época em que bigode era sinal de autoridade. Os tempos são outros, os bigodes nem têm mais a mesma importância, mas uma coisa não mudou: a fragilidade do modelo de vida urbana que temos adotado. Não posso e não pretendo usar este precioso espaço para dar luz aos mais primitivos sentimentos que em mim foram despertados em virtude dos fatos que se sucederam nos últimos dias. Cumprirei então o dever de apresentar uma análise menos biliosa sobre tal estado de coisas. Ainda assim não há como negar: somos reféns de nossos sistemas. Sejam eles públicos ou privados, os serviços prestados à população são, via de regra, omissos quanto ao “plano b”. No caso específico da água, além das variáveis técnicas que desconheço, mas que certamente poderiam ter sido monitoradas para evitar a catástrofe, a seqüência dos fatos revelou uma absoluta falta de capacidade em gerir ações eficazes não só na tentativa de realizar os reparos com precisão, mas principalmente no intuito de fornecer informação com a qualidade e a segurança que tais situações exigem. Privilegiado pela mãe natureza, felizmente nosso País não está na rota de ação de alguns fenômenos naturais como terremotos, furacões, e tantos outros. Mas nem por isso precisamos ser tão incapazes de gerenciar situações de grande impacto sobre a população. A demora em reconhecer a extensão e a gravidade do problema, a tentativa de “dourar a pílula” e por último o inútil esforço de fazer valer o “manda quem pode, obedece quem tem juízo” revelam que nossos homens públicos e suas autarquias são, no mínimo, dispensáveis em situações como esta. A iniciativa privada, através de ações isoladas, parece ter sido mais rápida, mais eficiente e até mesmo mais solidária. Não foram poucas as empresas que diante da inépcia pública lançaram mão de sua infra-estrutura disponibilizando água à população sem guarida. É evidente que responsabilizar alguém pelo rompimento da tubulação pode ser leviano. Porém, causa um certo frio na espinha perceber que uma cidade com a dimensão populacional de Franca passa por situações como essa sem que ao menos um dispositivo eficiente seja acionado. Fosse ele um conjunto de informações confiáveis, fosse ele um sistema alternativo de distribuição, fosse o que fosse, mas que desse as caras e se mostrasse capaz de amenizar a sensação de impotência diante do imponderável. No livro “A Meta” o autor descreve com uma clareza perturbadora o que chama de Teoria das Restrições, uma verdadeira aula de gestão onde o foco são os gargalos que impedem o necessário e vital fluxo das coisas dentro de um determinado sistema. Seria uma boa sugestão de leitura para aqueles que ainda pretendem provar para alguém que são capazes de ocupar cargos onde o lógico e o imponderável flutuam permanentemente sobre suas cabeças. Mas alguém poderia dizer que o imponderável é o imponderável e ponto final. A esses diria que então fiquem com o lógico e encontrem nele as alternativas para controlar e atender uma cidade inteira sem água e principalmente sem informação segura e confiável. Porém, tenho a impressão de que quando nosso modelo de vida urbana começa a dar sinais de que corre o risco de ruir é porque certamente já ruiu, e neste momento o imponderável certamente passa a prevalecer. ‘DELIRIUS POLITICUS’ O episódio da falta de água tem servido para estimular as discussões sobre a disputa eleitoral à Prefeitura municipal. Nas ruas tem gente apostando que o caos dos últimos dias deve respingar (se tiver água pra isso) no atual prefeito e pode complicar o pleito. Na prática tem muita gente achando que a falta d’água pode levar por água abaixo a reeleição do atual chefe do Executivo. Quem viver verá. FICOU BOM! PODIA SER MELHOR E tem gente que consegue tirar vantagem da crise com a água. Um conhecido me disse que por causa da falta de água sua sogra, que estava passando férias por aqui, decidiu antecipar o retorno para a capital. Portanto, ficou bom, mas podia ser melhor se a crise do abastecimento tivesse ocorrido pelo menos uns 20 dias antes, quem sabe a parenta nem tivesse vindo. Cruel. Muito cruel. TÁ RUIM? PODE PIORAR A qualidade do ar nesta época do ano é uma das mais importantes causas de doenças respiratórias, principalmente em crianças e idosos. A escassez de chuvas parece contribuir para que o ar torne-se cada vez mais nocivo às vias respiratórias, porém, os mais perspicazes devem ter notado que as queimadas de terrenos baldios, de montes lixo e de extensas áreas agrícolas próximas à cidade tornam ainda mais insuportável e insalubre respirar. Controlar tais queimadas faz parto do imponderável ou do lógico? SÓ PRA NÃO PERDER A PIADA Na cama, completamente sem sono, o filho grita para a mãe, na cozinha: – Manhê! Me traz um copo d’água? E a mãe: – Fica quieto e dorme, moleque! O garoto fica em silêncio por menos de um minuto. Aí, repete: – Manhê! Me traz um copo d’água! A mãe: – Não enche, menino! Vê se dorme! O menino: – Ah, mãe... Eu tô com sede... Traz um copo d’água, vai... A mãe, já brava: –- Moleque, Moleque! Se eu for aí eu vou te bater!!!. O menino, sem se alterar: – Tá, mãe, mas quando vier, traz um copo d’água! Alexandre H. Leonel Farmacêutico, ex-integrante do Conselho de Leitores - leonel@comerciodafranca.com.br

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