Com abastecimento de água sendo restabelecido de forma gradual, a população voltou a protestar contra a falta d’água e demora para os caminhões-pipas. Ontem, a Avenida Denizar Trevisani voltou a ser palco de pelo menos três manifestações. Em uma hora, os moradores atearam fogo em madeiras e móveis em dois pontos da avenida, na altura do Jardim Aeroporto III. Mais de cem pessoas estavam aglomeradas no local à espera da água prometida pela Sabesp.
Muitas crianças participaram do protesto. Elas ficaram no meio da rua batendo nos baldes e garrafas PETs e gritando em coro “queremos água, chama o bombeiro, chama a Sabesp, estou com sede, estou com fome...”. Dez policiais militares permaneceram na avenida até a chegada do caminhão. Eles organizaram a fila de entrega da água, que ocupava dois quarteirões.
A dona de casa Maria Vita, 54, participou da manifestação. Maria chegou às 10 horas e só conseguiu abastecer suas vasilhas às 16 horas, pouco depois que o caminhão-pipa que saiu de Caraguatatuba chegou com água. “Não almocei. Comi só pão com mortadela. Tem de fazer barulho para conseguirmos alguma coisa”, disse ela, exaltada.
No bairro, muitas crianças se empenharam, puxando baldes com água pela rua. A pequena Luana Santos, 9, moradora do Aeroporto III, esperou a água das 9 às 16 horas. “Meu avô tem problemas de saúde e não pode buscar. Lá na casa deles não tem água nem para beber. Estou aqui com meus primos para pegar água”. À noite, os moradores da Avenida Denizar Trevisani, no Jardim Aviação, voltaram a queimar objetos e impedir o trânsito.
Na mesma região, a lavradora Maria Lemos, 54, recorreu, pelo quarto dia seguido, à Igreja Sant’Ana, para ter água em latas e baldes. Mas nem assim conseguiu meios de tomar banho. Depois de trabalharem o dia todo na colheita de café e voltar com as unhas cheias de terra, ela e o marido usam apenas um pano úmido para se limparem. “Não tem como tomar banho. Estou passando pano molhado no corpo. A gente chega da roça, estava rastelando café e estou toda suja, mas só passo pano molhado no corpo inteiro, faz três dias”.
Nas minas e poços, a procura foi menos intensa que nos dias anteriores, como no Jardim Bueno. No Sesi, na Vila Santa Cruz, não houve filas, mas o fornecimento precisou ser interrompido às 14 horas de ontem. Segundo um funcionário, a água só seria liberada hoje de manhã, pois o poço ficou no limite depois de atender filas de moradores desde segunda-feira e poderia ficar comprometido.
CHEGOU!
Os primeiros bairros a receberem água novamente foram os localizados nas regiões mais baixas. A previsão é de que até a noite de hoje o fornecimento esteja totalmente normalizado (leia outros textos). Na Vila Aparecida, algumas pessoas puderam festejar a volta à rotina com as torneiras funcionando.
Na casa das cunhadas Isaulina Bezerra Marcelo, 62, Ana Abadia Costa Marcelo, 53, e Helena Marcelo Prado, 72, a comemoração pôde ser confirmada com o varal lotado de roupas. A água voltou nas residências às 7 horas de ontem depois de quatro dias sem. “Estou lavando roupas até de minhas duas noras”, disse Isaulina.
No imóvel número 534, no mesmo bairro, o chão estava molhado, as louças lavadas e as roupas no varal. “Nem acreditei quando a água voltou”, disse a dona de casa Helena Marcelo.
No Posto Paschoal, os funcionários também comemoraram o retorno do abastecimento ontem pela manhã. A água chega de “mansinho”, mas ao abrir a torneira, o técnico de serviços Evandro de Paula, 30, vibra. “Fico contente e agradeço a Deus”.
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