População revoltada


| Tempo de leitura: 3 min
Ameaças de atear fogo em veículos, avenidas impedidas por moradores, gritaria e protesto em diversos bairros de Franca. A revolta com a crise do abastecimento nesta quarta-feira era tanta que os moradores resolveram ir às ruas demonstrar sua indignação. No início da noite, cerca de cem pessoas ocuparam a Rua Corifeu Azevedo, na Vila Raycos, para forçar a ida do caminhão-pipa ao bairro. Segundo alguns presentes, o veículo não havia passado pela região terça nem quarta-feira. “Tem gente esperando o caminhão desde as 15 horas e até agora (19h30) não veio. Tem mina aqui perto, mas é perigosa”, disse a sapateira Regiane Silva, 19. “Tem gente doente nas casas e idosos sem água. É um desrespeito. Quando a gente está sofrendo, não passa nenhum político por aqui”, disse a faxineira Maria Barbosa, 38. Os manifestantes colocaram lixos no meio da rua e gritavam em coro “queremos água, queremos água”. A Polícia Militar esteve no local para controlar a bagunça. No mesmo horário, a comunidade do Jardim Aeroporto III também saiu as ruas para protestar contra a demora na chegada da água. De acordo com os manifestantes, a promessa era enviar um caminhão-pipa ao bairro às 17 horas, mas só chegou duas horas depois. Os populares acenderam uma fogueira, que apagou sozinha, pois não havia água. A PM também esteve no local. Não foi apenas o atraso dos caminhões que gerou revolta. No quarto dia com as torneiras secas, os francanos continuaram sem água para nada. Impedidos de tomar banho, cozinhar, lavar roupas e louças, limpar a casa e sem ter para beber, os moradores, mais uma vez, viveram um martírio em busca do recurso. Enfrentaram filas, sol quente e brigas. Ainda durante o dia, uma bomba de captação de água do Rio Canoas voltou a funcionar, levando alguns bairros a terem seu fornecimento parcialmente restabelecido. Mas a alegria durou pouco. No início da tarde, a tubulação voltou a rachar suspendendo a distribuição de água. Por dois dias seguidos, a dona de casa Izaura Santos, 55, esperou ansiosa pelas 18 horas, quando o marido chega do serviço. Oniro dos Santos, 57, é pedreiro, trabalha o dia inteiro e, quando retorna, ajuda a abastecer a família no Paulistano II. Os dois percorrem três quarteirões até uma mina de água para encher cinco baldes e transportar numa carriola. Sem água desde domingo, a família recorreu à mina na terça-feira e ontem. Nas duas vezes, encontraram fila e esperaram uma hora e meia. Na residência, moram seis pessoas, sendo duas crianças de 1 ano. A água armazenada nos baldes é usada para necessidades básicas. Izaura lava a louça usando uma caneca e a água suja serve para descargas. Para o banho, ferve água numa panela, transfere para uma bacia e usa uma caneca. Apenas as roupas dos netos foram lavadas, pois eles têm apenas um ano e sujam muitas peças. As outras estão amontoadas na casa. “Me sinto humilhada. A gente é pobre, mas gosta das coisas limpas”, disse. No mesmo bairro, na residência da dona de casa Maria Gonçalves, a situação está complicada. Sua mãe, Mercina Rodrigues, depende de fraldas e não tem conseguido fazer a higiene completa. “Sem água, não consigo nem limpá-la”. A analista de sistemas Nise Lane Franceschini, 30, da Vila Nicácio, está sem água desde segunda-feira. Ela tem uma filha de três meses e está com dificuldades. “Está difícil fazer a higiene, lavar as mãos antes de manipulá-la e esterilizar as mamadeiras sem água corrente”. Nise Lane não vê a hora do abastecimento ser normalizado. “Estou ofendida e preocupada porque quando você lida só com adultos, dá-se um jeito, mas agora tenho uma bebê e estou colocando a saúde dela em risco com a falta d’água”. (Colaborou Bárbara Borges)

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários