Nas mãos da Sabesp


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Bastaram poucas horas para que a adutora da Sabesp, que capta água do Rio Canoas, responsável pelo abastecimento de Franca, rompesse novamente ontem e acabasse com as esperanças da população de ter o fornecimento, interrompido desde domingo, restabelecido. A nova pane levou o prefeito Sidnei Rocha (PSDB) a decretar estado de emergência no município e a citar extrajudicialmente a concessionária. Em encontro com diretores da empresa e posterior coletiva de imprensa, Rocha mostrou-se irritado com a situação e disse esperar que a Sabesp seja responsabilizada judicialmente pelas seguidas falhas. O dia foi marcado por tensão e protestos esporádicos de moradores que não conseguem acesso aos caminhões-pipa que a companhia disponibiliza como alternativa. A empresa não fala em ressarcimento aos consumidores e nem dá um prazo exato para o restabelecimento do sistema. Nos bairros, os flagrantes da procura por água em locais abastecidos por poços artesianos continuaram durante todo o dia. Com a paciência esgotada, moradores ganharam novo alento na tarde desta quarta-feira, com a abertura do Parque “Fernando Costa” e do Ginásio Poliesportivo, dotados de poços, até às 22 horas. A tentativa de tirar do Procon e do Ministério alguma posição que permita entender qual o tipo de compensação, e se vai haver alguma, para os milhares de contribuintes que entraram no quinto dia sem uma gota de água em suas residências não surtiu muito efeito. O diretor do Procon, órgão de defesa dos consumidores, José Antônio Guimarães, que demonstrou não conhecer a extensão do problema, disse que a Sabesp poderia até ser multada, mas que isso deverá acontecer diante do não cumprimento de alguns itens previstos na legislação (veja texto ao lado). Já o promotor Carlos Henrique Gasparoto, da Promotoria de Defesa do Consumidor, deverá se reunir com a direção da Sabesp para discutir o assunto. Mas apenas na próxima terça-feira. Na prática, a decretação do estado de emergência pelo prefeito Sidnei Rocha não melhora em nada a situação dos moradores. A medida é uma necessidade burocrática para que a Sabesp possa contratar, com dispensa de licitação - justificada pelo período eleitoral - empresa terceirizada que realizará o trabalho de reconstrução da adutora. Pelo decreto assinado por Rocha estão suspensas as atividades realizadas por escolas públicas ou particulares e lavagem de veículos, calçadas ou jardins sob pena de multa. SEGUNDO ROMPIMENTO Parte dos trabalhadores que tentaram recuperar a tubulação do sistema de captação da Sabesp no Sítio São Paulo, no limite entre Franca e Claraval (MG), já tinha ido embora ontem, por volta de meio-dia, após dar por encerrados os trabalhos que haviam começado no domingo. No início da tarde, a surpresa: um novo rompimento fez jorrar água por cima da rede elétrica, numa altura aproximada de 15 metros. Em poucos minutos, a área onde passa a tubulação da adutora, coberta por 450 metros cúbicos de pedra para dar sustentação ao solo, estava toda alagada e submersa. Às 15h30, apenas dois funcionários que prestam serviço à Sabesp estavam no local. As máquinas, equipamentos e homens que tinham trabalhado seriam novamente trazidos para conter o vazamento. A adutora da Sabesp tem 24 anos e, segundo a empresa, qualquer trabalho de manutenção só pode ser feito com a interrupção do fornecimento de água. No local em que houve o rompimento é possível ver parte do encanamento de ferro que foi removido. Os canos, com abertura de 80 centímetros, são ligados por uma luva de borracha. No domingo, um pequeno buraco aberto pela água, com cerca de cinco centímetros, foi o causador do problema. Ontem, foi outro: a luva que une a tubulação não agüentou a pressão, rompendo-se. Não havia sinais aparentes de ferrugem, fadiga ou partes apodrecidas nos canos retirados da adutora. IRRITAÇÃO Na coletiva de imprensa de ontem, feita após encontro a portas fechadas com o superintendente da Sabesp em Franca, João Comparini Júnior, e com o diretor da empresa para o interior, Humberto Semeghini, Sidnei Rocha rechaçou as justificativas da Sabesp. Antes, pela manhã, Rocha já havia telefonado para o presidente da Sabesp, Gesner Oliveira, e exigido que ele apresentasse solução para o problema. “Com inundação ou sem inundação, com solo instável ou não, isso está errado. É óbvio que estou insatisfeito e bravo. Quero respostas para o que está acontecendo”, disse. “Nada justifica esse sacrifício que os moradores estão passando”, completou. A posição do prefeito, no entanto, destoava da adotada por Semeghini. Este, ao pedir desculpas à população, emendou em seu discurso destaque aos números do abastecimento de água e dos serviços prestados pela concessionária em Franca. Chamado de “político” por Sidnei Rocha, Semeghini desconversou sobre o desconto na tarifa mínima de R$ 22,50 dos dias em que a população não teve o fornecimento prestado. Para ele, “é difícil falar em indenização”, sugerindo que, por iniciativa própria, a Sabesp não descontará os valores. Com um tapinha nas costas, Rocha interrompeu o diretor dizendo que ele pode ressaltar todas as qualidades de sua empresa, mas que a população deve processar a Sabesp porque tem esse direito. “O que estamos vivendo aqui é um desastre”, afirmou. Ao final da coletiva, o prefeito informou que está enviando um relatório da situação em Franca à Secretaria de Saneamento e Energia do Estado. Outro, semelhante, deverá chegar à ANA (Agência Nacional de Água), com funções reguladoras para o setor. Rocha descartou cancelar o contrato com a Sabesp - o que seria previsto nesta situação - por entender que, no momento, a medida traria ainda mais prejuízos à população.

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