O caipira poeta


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É na casa simples, cercada por uma varanda numa chácara em Restinga que Eurípedes Costa, o “Tio Sassá”, de 71 anos, pensa na vida e viaja através do pensamento. Qualquer pedaço de papel serve para ele escrever as suas poesias que surgem a todo momento. A natureza colabora: as árvores, as flores, o ar puro e fresco e o canto dos pássaros dariam a impressão de que o mundo parou, se não fosse pela rodovia Cândido Portinari avistada lá embaixo no meio do verde. Depois do cafezinho, é a hora de mostrar as suas poesias. O livro guarda os rascunhos e os “borrões” guardam as lembranças. Lembranças de uma vida, de fatos, de histórias e causos. Das quase 800 poesias, muitas ainda estão guardadas apenas no computador, chamado por ele de memória. “Eu faço ‘de cabeça’ e depois que está pronta eu demoro para escrever”, conta. Para não se perder pelo tempo, o caipira poeta conta com a ajuda da família, que digita e arquiva os textos no computador. “Escrevi muitas músicas também que ficaram famosas nas vozes de cantores sertanejos, mas na época eu era ingênuo e eles levaram embora e registraram. Nem posso contar porque ninguém vai acreditar e não tenho como provar”, disse. Carismático e empolgado, entre uma conversa e outra seu Eurípedes gosta mesmo é de declamar. E é nesse momento que ele consegue transmitir exatamente o que a poesia canta. O ambiente bucólico é captado por uma energia emocionante e nostálgica. Quando o caipira poeta fala de Saudades (leia a poesia ao lado), nessa hora os seus olhos se enchem de lágrimas. É a saudade que bate no peito e faz lembrar de forma carinhosa da sua mulher, que há cinco anos morreu de câncer. “Nós ficamos casados durante 46 anos e nunca brigamos”, comenta. As suas poesias falam de tudo: do amor, do sertão, dos problemas sociais, como em A Menina e a Boneca, que conta a luta do caboclo Tião para conseguir uma boneca para a filha doente e é morto a tiros pelo delegado depois de roubar o brinquedo na venda do arraial. Enfim, qualquer tema vira poesia no “computador” de Eurípedes. HISTÓRIA DE VIDA Praticamente um autodidata, Eurípedes nasceu em Pedregulho, morou em São Paulo e há oito anos vive numa chácara em Restinga. Criado na roça, aos 13 anos ele ensinava a ler e a escrever os funcionários do sítio e aos 16 já era um administrador de fazendas. Eurípedes é de uma família grande: eram 15 irmãos. Talvez por isso não teve muita oportunidade na vida, como ele mesmo diz. “Se eu tivesse estudado mais hoje eu seria um doutor em Letras”, afirma, mostrando que sabe falar um pouco de japonês, espanhol e indígena. Por alguns anos ele foi representante do índio do Mato Grosso. Em São Paulo, Eurípedes atuou diretamente no projeto Amparo Maternal, que atendia 120 crianças abandonadas. Muitas delas se tornaram seus filhos de criação. O livro com o registro e fotos de cada criança ele guarda com carinho e se emociona. Um dos meninos, hoje com 18 anos, mora com ele na chácara. O caipira poeta tem uma história de vida triste. Há seis anos a sua filha também luta contra o câncer, mas a doença que abala a família não é motivo para ele se abater, pelo contrário, o sorriso que ele carrega no rosto parece dar mais força e coragem a todos que estão ao seu redor. “A minha idéia é publicar um livro só com as minhas poesias e depois gravar um CD. A renda seria revertida para algum hospital do câncer”, ressalta.

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