Vivendo no lixo


| Tempo de leitura: 3 min
PERDIDO -  O cachorro Bola, criado por Benedita, é visto no meio da sala da residência
PERDIDO - O cachorro Bola, criado por Benedita, é visto no meio da sala da residência
Uma senhora de 63 anos vive no meio do lixo, com ratos, baratas e um cachorro numa casa no Jardim Brasilândia I. O imóvel possui cinco cômodos. Todos estão tomados por restos de construção, brinquedos quebrados, latinhas e até restos de comida. As pilhas de lixo chegam até o teto. O cheiro é insuportável, mas Benedita Madalena Cabral consegue viver no local e não admite que retirem os materiais. Benedita recolhe os resíduos na rua há dez anos. A única filha dela, Gláucia Inácio, 38, pede ajuda para tratar a mãe. Gláucia alega que está desempregada, precisa sustentar a família e não tem como pagar especialistas para cuidar da mãe. “A casa dela é um lixão. Tenho quatro filhos e não tenho dinheiro para pagar tratamento. Ela não merece isso. Trabalhou a vida inteira, comprou essa casinha e precisa viver melhor”. Benedita leva lixo para casa todos os dias. Às vezes, carrega no ônibus. Para dormir, estende um colchão num canto do quarto e se deita com duas bonecas. Ao lado dela, ficam sacolas enormes de sujeira. Quando questionada pela filha, a senhora diz que pega os materiais para vender. “Ela fala que vai vender, mas vende muito pouco. Para mim, ela não é normal. Uma pessoa normal não junta lixo desse jeito”, disse a filha. À reportagem, Benedita diz que guarda os objetos para reformar a casa futuramente (leia no apoio). Há dez anos, Benedita leva materiais para casa, mas a filha disse que ficou pior depois da mãe ser despedida da Prefeitura em 2005. A própria filha deixou de ser vizinha da mãe por causa dos bichos na casa dela. “Eu morava nos fundos. Mas há três anos tive de me mudar porque não agüentava tantos ratos e baratas que saem da casa dela à noite. Tenho medo de entrar aí”, disse Gláucia. Os vizinhos reclamam do mau cheiro e bichos vindos da residência de Benedita. “Ela é uma pessoa boa, mas tem mania de lixo. No fim de semana, ela tira tudo para fora da casa e depois guarda de novo”, disse a dona de casa Jerônima de Souza, 70, vizinha de frente de Benedita. Benedita fica nervosa só de comentarem sobre a possível retirada dos objetos. “Se falamos que vamos tirar, ela grita e chora. Ela já perdeu dinheiro e documentos aí no meio da sujeira. Já encontrei R$ 130 perdidos”, disse o sapateiro Alisson Danilo, neto dela, que mora ao lado da avó. Em fevereiro de 2007, a Prefeitura fez uma faxina no local após reclamações dos vizinhos. Só da frente do imóvel foram retiradas 7,5 toneladas de entulho. Os familiares e vizinhos também já limparam o imóvel enquanto a proprietária estava fora, mas tiveram problemas quando retornou. “Quando ela viu o lixo de fora, chorava como se tivesse morrido alguém. Ela gritava e me xingava”, disse Gláucia. “Só vou conseguir limpar de novo se tirarmos minha mãe daqui. Mas antes de voltar, ela tem de se tratar, senão entupirá a casa de lixo de novo. Acho que precisamos interná-la num hospital psiquiátrico”. [FOTO2] ESPECIALISTAS A filha disse que já levou a mãe para consulta na Santa Casa, mas não resolveu. “Ela não aceita tomar medicamento e diz que não é doente”. A psiquiatra Ana Cristina de Pádua acredita que Benedita sofra de um quadro psicótico. “É difícil fazer um diagnóstico. É preciso que ela seja examinada para saber como é sua relação com o lixo. Ela pode sofrer algum quadro psicótico que a impede de ter um contato normal com a realidade. Para ela, o lixo não é lixo”. Segundo a especialista, a senhora pode ter TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo). “Ela recebe uma ordem do cérebro e, às vezes, não entende o que está fazendo”. Benedita também pode ser vítima da Síndrome de Diógenes. Portadores desse distúrbio acumulam lixo ou objetos inúteis em sua casa pensando que terão utilidade no futuro. É comum em idosos que vivem sozinhos. A Prefeitura informou que oferece ajuda, mas é a família que tem de convencer a senhora a se tratar (leia no apoio).

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários