Alarido


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Não me importa ser execrado por muitos quando outros me creditam razão ao criticar vandalismo moral-cultural. Acrescente-se ao fato a tranqüilidade que sinto em poder de alguma forma contribuir no aprimoramento das relações humanas com necessária aplicação de modos e comportamentos educados. Distinguido com amável convite, compareci a um evento onde a presença maior destacava autoridades políticas, os mais expressivos poderes e, de maneira especial, as lideranças empresariais da comunidade. O convite era claro no tocante ao motivo e protocolo do acontecimento: a posse de novo conselho diretor de prestigiada entidade de classe, responsável por alavancar o mais alto componente econômico local. Seria natural vaticinar-se que ali, no mínimo dois discursos, de alto conteúdo, seriam ouvidos: um do transmissor do cargo em sua prestação de contas e outro, do recém-empossado, apresentando seu projeto e metas para consecução dos objetivos almejados pelo grupo associado à entidade. Cumprida a primeira parte do protocolo com a formação da mesa de honra, dar-se-ía início ao solene evento com a exibição de um vídeo – com duração de 5 minutos – cujo foco era registrar os feitos da gestão que se findava com os ganhos reais pela entidade. Houve a exibição? Sim, aconteceu, no entanto, não fora pela boa qualidade de sua elaboração, extremo valor vocal de quem fez a narração, todo o trabalho seria perdido de maneira absoluta, pelo alarido irrompido, indesejável e deseducado de uma platéia... Certos comportamentos identificam uma cidade e sua gente. Seria bastante desejado que fizéssemos forte e profunda reflexão sobre o fato. Não era uma reunião de gente humilde, despreparada, sem compromisso ou deveres com a evolução dos princípios de uma boa sociedade. Eram os detentores do poder pequeno, apreciadores dos holofotes, gestores da economia, aos quais, cabia ouvir atentos e agradecidos os presidentes envolvidos. Aos dois presto homenagem ao revelar em suas falas, fiel dedicação nas contas apresentadas e projetos a desenvolver. Como natural, em ágape de tal envergadura, os cuidados e carinho dos promotores, não impediu outros discursos. Entre eles: dois marcaram hábitos antigos que nada acrescentam. Houve tempo em que a preocupação foi denegrir a vizinha cidade Ribeirão Preto, perdendo-se oportunidade de trabalho em favor de nosso credenciamento para crescer. Hoje, alguns ainda se ocupam em culpar a China distante por nossos insucessos. Dois discursos se valeram do tema China para justificar falta de planejamento, criatividade, operosidade. Senhores empresários, deixem de lado os lamentos, os apupos, as críticas nem sempre justas. Juntem-se em união que forme nova elite dedicada ao trabalho com sabedoria. Não passem ao futuro a idéia de que a paternidade de uma boa ação, não sendo sua, deve ser estrangulada. Passem aos seus herdeiros o sentimento da necessária união, do reconhecimento dos valores de outros. Só assim poderão ser transformados em paladinos da nobre arquitetura de uma grande e culta cidade. Lá longe, no futuro distante, serão reconhecidos e lembrados pelos pósteros, como sábios e silentes ouvintes da razão; como diligentes idealistas construtores de uma comunidade; como formadores de respeito do princípio de cidadania e dignidade humana dentro do culto da igualdade entre os homens. Para se construir o futuro, alguns precisam ter coragem, pondo em pauta a triste verdade dos erros. Não basta a uma sociedade desfilar importância arrogante, luxo com luzes de fachada sem o mais importante componente da vida: urbanidade. Garcia Netto Jornalista

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