A quem interessar possa


| Tempo de leitura: 4 min
Os eventos sociais, políticos, de comemoração, institucionais, técnicos, configuram o cenário ideal de observação crítica dos perfis humanos. Há, inclusive, uma ciência, “Protocolo e cerimonial”, de organização e gerenciamento de normas de etiqueta, para garantir a que as vaidades pessoais convivam em paz e harmonicamente. Não houvesse... Não houvesse, os excessos de estrelismo jogariam qualquer ação bem planejada no “cesto arquivo”. Vamos tomar alguns exemplos. Nosso cenário poderia ser o da posse de nova diretoria de uma associação. Estariam lá os que receberam convites oficiais segundo suas obras: autoridades, que não podem faltar para garantir representatividade ao evento; diretores que terminam mandato e os novos; familiares de uns e outros – familiares nunca faltam, pois garantem os momentos das “grandes emoções” dos discursos –; amizades, também de uns e de outros, para garantir a equanimidade dos aplausos; representantes de outras associações e de empresas; representantes de quem não foi porque não suporta mais ocasiões do tipo e... representantes de representantes. No salão escolhido, um indivíduo corre dentre ternos e casacas, longos e terninhos, para garantir a que nenhuma individualidade realmente significante – de acordo com a filosofia que lhe foi ditada pelos organizadores do evento – fique fora da lista de citações do serviço de protocolo. Este indivíduo, o mestre de cerimônias, deveria ser chamado, isto sim, de “mágico de cerimônias”. Dele depende a mais difícil das artes: garantir alguma sintonia com os horários agendados para início e fim dos trabalhos; cortar arroubos dos mais exaltados – personalidades “feridas” ou que julguem desprestigiadas suas qualificações – e dos mais “chegados” aos vinhos, uísques e cervejinhas que, incorretamente, são servidas antes que a cerimônia prevista termine. Além disso, cabe a ele o supremo exercício de colocar nos lugares certos da mesa principal quem realmente interessa, cuidado para que as vaidades se sintam prestigiadas, recompensadas, reforçadas positivamente. A hora da fala caracteriza outra fogueira de vaidades – como diria Tom Wolf – para o pobre cerimonialista tentar domar. Quem somente assiste não sabe que as falas são previstas com antecedência, bem como, tempo para cada um dos escolhidos e é aí que reside o perigo. Perguntaram-me uma vez onde deve ficar o mestre de cerimônias no momento em que alguém usa a fala. E eu respondi: atrás. E ao lado. Atrás para dar ao orador, segurança; ao lado, a partir do momento em que ele atropelar o tempo combinado, para “ameaçá-lo”. São conhecidas as elegantes formas com que o prefeito Sidnei Rocha e o atual presidente do Confederação Nacional da Agricultura, Fábio Meirelles se “safam” do “encostão” do cerimonialista: “vou encerrando porque meu apresentador, aqui do lado, de acordo com o combinado, me recorda que meu tempo acabou”. O duro é garantir que a palavra não fique aberta. Há quem a queira, mesmo não tendo o que falar. Não há, a rigor, integrante de mesa de honra que seja sincero quando diz que “abre mão de falar” ao ser convidado. Não abre. E, aceitando, fará o que puder para tentar apagar o brilho dos que o antecederam. Aí, se torna piada. A pavonice humana é desesperadora. Quem não se prepara com antecedência, torna-se palhaço da comédia humana. A audiência se dispersa. O proseio toma conta do ambiente. A paciência se esvai. E os falsos oradores não se apercebem de nada. Sentem-se nas nuvens, donos do mundo, mesmo e apesar de suas ruindades. Ganham tapinhas nas costas mas não percebem a ironia destes gestos. Enquanto isso, às mesas, infelizes expectadores tentam garantir um mínimo de silêncio respeitador daqueles outros, que só comparecem para aproveitar biritas e engasga-gatos de graça. Triste. Saudariam melhor quem os convida se ficassem em casa. SILÊNCIO RESPEITADOR Convidados não devem e não podem competir com o sistema de amplificação de som que serve à organização do evento. A velha regra ensina: quando alguém fala a gente se cala. Até, por educação. AOS ORGANIZADORES O serviço de bebidas deve acontecer depois de terminada a parte formal da ação cerimonial prevista, que vai até o final dos discursos. Apenas desta forma se pode garantir respeito e compreensão à motivação do evento. O álcool causa “trombadas” não apenas no trânsito mas também entre pessoas. VAIDADE HUMANA Deixe-a em casa. Os sábios são humildes. Se o ruído o impede de ouvir o que as figuras realmente representativas têm a dizer, exija, de seus pares, o silêncio indispensável. Faça-o, porém, com classe. Há “amigos” que, em determinadas ocasiões, dizem o que pensam. Pode ser que você não goste. Luiz Neto Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários