Cheguei de volta de minha aventura para o Pólo Norte. Nada como cair fora do dia-a-dia...
Como estava a bordo de um navio numa das mais remotas regiões do planeta, experimentei algumas coisas inéditas. Quinze dias sem e-mail, internet e celular, por exemplo. Não dá para me imaginar vivendo e trabalhando sem celular, sem internet e sem e-mail hoje em dia, mas ali não havia escolha. Tive que passar quinze dias sem e então fiz outras coisas. Li. Conversei com pessoas. Assisti a palestras. Dormi.
E um dia aconteceu uma coisa interessante. A bordo do navio havia um artista plástico contratado para realizar com os passageiros algumas atividades especiais. Não me interessei por pintar quadros mas, durante um jantar, contei de minhas atividades e falei que era cartunista. Ele insistiu para que eu participasse das atividades. Após o jantar, me deu um bloco de papel para aquarelas, um marcador, um lápis e uma borracha e disse pra eu me divertir.
Repentinamente eu estava ali, com tudo que sempre amei: lápis, borracha e papel. E comecei a desenhar. Fiz um, dois, três cartuns... No começo meio enferrujado, aos poucos as idéias foram brotando e no dia seguinte pela manhã eu havia feito dezoito cartuns. Todos focados nos assuntos da viagem. Ao final do terceiro dia eram 28 cartuns, de primeira, naturalmente.
Que coisa curiosa. A falta da internet, do celular e do e-mail fez com que eu retomasse minha velha atividade de cartunista com amor e com paixão. Sem querer nada em troca, apenas a oportunidade de expressar-me através de minha arte. Eu mesmo me impressionei com a facilidade com que as ideías fluíram e lembrei-me que uma vez o Zélio Alves Pinto comentou que o cartunista nunca perde a mão.
Mesmo parado, seu traço está amadurecendo internamente. E deu o exemplo do Borjalo que como eu ficou mais de vinte anos sem “cartunar”. Quando retomou, seu traço estava melhor que antes...
Pois bem, naqueles dias em que voltei a ser um cartunista, refleti sobre minhas escolhas, sobre o tempo que passei e passo “trabalhando” enquanto deixo de lado pequenas coisas que são minha essência. No caso dos cartuns, eles foram deixados de lado porque fui levado a acreditar que eles não são “sérios”. São apenas manifestações artísticas, veadagens que não levam a lugar nenhum.
Molecagens que nada valem diante das dificuldades de ganhar a vida, de produzir, de fazer algo de útil para a sociedade. Como o meu vizinho engenheiro. Ou seu cunhado médico. Ou sua irmã advogada. Ou seu amigo empresário...
A experiência artística foi aos poucos jogada para escanteio diante de uma sociedade cada vez mais pragmática, acostumada a valorizar apenas aqueles que produzem bens tangíveis, materiais. E com isso milhares, milhões de artistas ganham suas vidas hoje como escriturários, bancários e padeiros. Ou vendendo seu talento para a publicidade a forma que a sociedade encontrou para transformar arte em mercadoria.
Pois quero propor um exercício. Dentro de alguns dias começam as Olimpíadas. Assista à cerimônia de abertura e veja quanto tem ali de arte. E depois reflita sobre a razão daquilo tudo se a sociedade não dá valor à arte.
O ser humano precisa de arte. Um quadro que nos comove, um poema que nos enleva a alma, uma música que nos leva às lágrimas, uma peça de teatro que nos faz refletir, um cartum que nos faz sorrir, uma escultura que nos prende o olhar... São experiências necessárias para quem quer uma vida completa.
Naquele navio a caminho do Pólo Norte sem as armadilhas que consomem o meu tempo através da arte voltei a ser aquilo que eu sempre quis ser: simplesmente eu. Agora preciso ir. Tenho três mil e-mails atrasados pra responder.
Luciano Pires
Jornalista, escritor, conferencista e cartunista
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