Bipolar


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O deputado federal Marco Aurélio Ubiali (PSB) é um dos políticos mais surpreendentes que já conheci. Médico, carreira consolidada, decidiu relativamente tarde engajar-se na política partidária. Quando o fez, mostrou que era bom de voto. Perdeu duas eleições antes de vencer - mas mesmo quando não se saiu vitorioso, alcançou resultados significativos. Não é por isso, entretanto, que considero Ubiali um político sui generis. O que me surpreende na trajetória do único deputado federal de Franca e região é a capacidade de ir do céu ao inferno - e vice-versa - em instantes. As últimas semanas têm sido particularmente intensas para o deputado que abusou do direito de trafegar no trecho Caldeirão do Diabo - Paraíso de Deus. Para começar, Ubiali votou a favor da criação da CSS, a famigerada CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira) em vias de ser reeditada pelo governo Lula com o nome de Contribuição Social para a Saúde. Nem bem nos livramos do imposto do cheque e, com o voto do nosso deputado, o governo federal conseguiu aprovar na Câmara - com uma margem de apenas dois votos favoráveis - a tal da CSS. Se Ubiali tivesse votado contra... Nem bem nos recuperamos e lá vem nosso deputado nos assustar de novo. O PSB, partido que Ubiali controla e do qual é o maior expoente, passou todo o período pré-eleitoral ensaiando a candidatura própria. Ora sairia com Joaquim Ribeiro (médico e vereador), ora pensava em Paulo Zamikhovsky (publicitário e ex-presidente da Apae) ou Ricardo Bessa (médico e ex-presidente da Unimed). Até que Ubiali agiu. Sabe-se lá de onde tirou a idéia - e por alguns dias, levou adiante -, resolveu lançar como candidata a prefeita Arlete Ubiali, sua irmã. Nada contra Arlete, mas a experiência dela na administração pública é zero. Nunca ocupou cargo eletivo e é uma ilustre desconhecida do eleitorado. Numa tacada só, Ubiali expôs-se ao ridículo, queimou sua irmã e inviabilizou quaisquer outros nomes que restassem ao PSB. E tudo por nada, já que dias depois anunciou que entraria para a megacoligação que une quase todo mundo a Sidnei Rocha. E Arlete? Bem... Mas Ubiali não pára. Nunca. Esta semana, outra vez, surpreende. Agora, para o bem. É dele a iniciativa de um projeto de lei genial - isso mesmo, genial - já em tramitação na Câmara dos Deputados. O projeto de Ubiali obriga que os que presos recolhidos às penitenciárias brasileiras trabalhem e estudem. Obriga, e não permite. Simples, óbvio, mas ninguém tinha tentado. Pode significar uma revolução no sistema prisional se, caso aprovado, encontrar governantes dispostos a colocá-lo em prática. Além de definir como seria o trabalho, estabelece também o que seria feito com a remuneração. Propõe que metade dos rendimentos seja destinada à família do detento. A outra metade ficaria retida numa aplicação financeira liberada aos poucos, ao longo de três anos, após o término da pena, garantindo tempo para que o futuro ex-detento encontre o que fazer. Perfeito. O projeto estabelece ainda que o detento tem também obrigação de estudar. Trabalho de dia, estudo à noite. Não consigo imaginar em nada melhor para um preso fazer. Os condenados passariam a ter reais condições - morais e financeiras - de se reinserir na sociedade. Tem o mérito de transformar o hoje inútil tempo de pena - porque nada modifica no sujeito - num período em que ele pode aprender alguma coisa e guardar recursos para o também difícil momento de deixar para trás os tempos de penitenciária. Ubiali é um político inteligente e capaz. Se conseguisse segurar em seu íntimo a vontade incontrolável de propor ou dizer bobagens que rotineiramente o acomete e reservasse sua ação parlamentar apenas para o que interessa, apresentando projetos importantes como este ou trazendo à cidade autoridades, ministros e dirigentes políticos, poderíamos ter nele a única grande novidade política séria em anos. Até que Ubiali se dê conta disso, seguimos apreensivos. Para o deputado que já anunciou que iria montar um apartamento em Ribeirão Preto na véspera da posse em Brasília, nenhuma surpresa é grande o bastante. CORRÊA NEVES JÚNIOR é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

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