Manual do candidato


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Z. era um sujeito simpático e inteligente. Tinha seus sonhos e ideais mas não eram tão “entorpecedores” como os que agora possui em seu coração. Lembro-me que antigamente dava para sentir seu comportamento sincero, seu pensamento limpo. Tinha também riso contagiante, sempre fazendo piadinha de tudo, de bem com a vida, e isto o fazia ver as coisas com um jeitão singelo de ser que atraía a todos. Até se mudar para a cidade grande. Num desses dias ouvi alguém chamar por meu nome e, ao me virar, surpreendi-me. Era Z., inteiro, ali na minha frente. Morando fora, após colocar em dia alguns assuntos, declarou-se candidato às eleições de sua cidade, para surpresa minha. Todo empolgado e com o “discurso” na ponta da língua “chegou-chegando” no velho amigo de infância que dividiu com ele na tenra idade o transporte escolar – feito numa daquelas famosas bicicletas “barra forte”; em que na ida a missão de pedalar era minha. Já na volta, a “barra” era dele, comigo de garupa. Bons tempos aqueles... Disse que havia encontrado o seu caminho, a sua maior razão existencial. Segundo ele, havia de fato demorado para se encontrar na sua vocação, que estava sempre tão próxima mas faltava-lhe sensibilidade para a grande descoberta: seu futuro, na política. Agia como detivesse o monopólio da palavra. Cheguei a pensar se teria que pedir um “aparte” para poder exercer o meu direito de fala, mas o deixei a vontade. Foi quando resolveu me contar do curso que teria feito, e de seu “manual” com algumas táticas de campanha: “a coisa é simples, meu velho e bom amigo. Aprendi no manual que o candidato deve encarnar um personagem com perfil fácil para que as as pessoas se identifiquem com ele, se sintam ligadas a ele de alguma maneira”. E mandou: eu adotei o “bonzinho e defensor dos fracos, pois é na grande massa eleitoral que estão os votos”. E continuou: “meu objetivo é ir ao encontro do povão, não importa onde. Como um camaleão me adequarei ao ambiente e às pessoas. Se estiverem num velório, chorarei junto, confortarei os familiares e amigos daquela alma que partiu; nos botecos da cidade onde estão os bebedores, beberei a mais forte aguardente e chuparei um limão, me fazendo um deles; nos campeonatos varzeanos de futebol estarei ao lado da maior torcida, elogiarei o jogador mais popular e querido do time e, se preciso for, xingo até o juiz para agradá-los; quando vir uma criança, a pegarei no colo, e mesmo que seja feiosa, elogiarei sua “beleza” pois os pais gostam disto, orgulham-se de suas crias. Outra coisa: o sorriso aberto no rosto jamais pode faltar, é tempo de sorrir e assim ganhar votos. Um bom e firme aperto de mão transmite segurança ao eleitor; tocar o ombro e dar um apertão seguido de um estratégico abraço faz milagres que você nem imagina. Falando em milagres, um bom candidato é sempre ecumênico, não tem religião definida, sua religião é a do eleitor...”. Basta! Eu disse. E meu “aparte” foi de súbito, sem permissão do orador. Fuzilei-o com um olhar e pedi, Z., quando passar o período de “desfaçatez e patifaria” em que se envolveu, se cure, e verifique o que ainda de bom restou do seu caráter e, também de amigos... Ricardo Veríssimo Júnior Funcionário público, ex-integrantes dos Conselhos da Saúde e do Comércio

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