A nossa guerra civil


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Foi um conflito que os vencedores nunca comemoraram e os derrotados, mais de sete décadas depois, batem no peito e se sentem honrados em lembrar. A Revolução Constitucionalista de 1932, comemorada hoje, foi uma guerra na própria acepção da palavra, opondo paulistas ao resto do Brasil, entre julho e outubro daquele ano. Passagem histórica pouco estudada, é considerada a guerra civil brasileira do século 20, para onde foram mais de 700 voluntários francanos, além de muitos outros, alistados em cidades da região. Para certa linha de pesquisadores e estudiosos, a revolução de 32 não passou de um conflito armado pela oligarquia cafeeira que dominava a economia do País à época. Outros entendem que seu propósito era legítimo e que São Paulo, com o conflito, forçou a democratização, obrigando, em 1934, o Governo de Getúlio Vargas a elaborar uma nova Constituição Federal. Em síntese, a sociedade paulista, leia-se os oligarcas, grandes fazendeiros de café, estava inconformada com a nomeação de um interventor não paulista para o Estado de São Paulo. Vargas toma posse em 1930, depois de um golpe militar, suprime a Constituição de 1891 e governa por decretos. Ao nomear interventores para todos os Estados, designa o pernambucano João Alberto para São Paulo. A efervescência não diminui nem com outro interventor, desta vez o paulista Pedro de Toledo. Lideranças políticas, misturadas a setores da imprensa, do Exército, Força Pública (atual Polícia Militar) e intelectuais exigiam a formação de uma constituinte. Em 23 de maio de 1932, no centro de São Paulo, uma multidão marcha para a sede do PPP (Partido Popular Progressista), favorável a Vargas. Dentro do prédio, os apoiadores do governo resistem. Na tentativa de invasão, quatro jovens são mortos. São os ícones da revolução: Martins, Miragaia, Dráusio, Camargo. Um quinto, chamado Alvarenga, é morto alguns meses depois. Forma-se o MMDC, movimento civil que passa a atuar na clandestinidade. Em 9 de julho, as primeiras tropas mobilizam-se na capital, dando início à revolução. A expansão para o interior foi imediata. Na região nordeste do Estado, a frente mineira foi palco de intensos combates, embora mais localizados na região de Mococa e Casa Branca. A partir de Franca, que teve mais de 700 homens e mulheres alistados, o palco de guerra situava-se em Rifaina. Táticas de guerrilha foram largamente empregadas pelas tropas paulistas, onde se destacou o Batalhão de Caçadores Francanos, com ocupação da ponte ferroviária da Companhia Mogiana, que liga Rifaina e Jaguara, esta do lado mineiro. Nomes importantes de soldados alistados pela cidade foram mais tarde reconhecidos pelo governo paulista, como o do sociólogo Paulo Duarte, que comandou o temido trem blindado, que levava horror às tropas federais. Em uma rápida pesquisa por documentos da época, é notório o papel desempenhado pela propaganda nos dois lados da guerra. O general Francisco Jorge Pinheiro, comandante das tropas mineiras, pedia que os paulistas, já iludidos pela possibilidade de vitória, usassem sua vitalidade e força para algo mais justo. “Meus homens não sentem prazer em tomar vossas cidades”, dizia o oficial em panfleto jogado por aviões de caça vindos do Rio de Janeiro. Na contra-ofensiva, os paulistas tentavam sacudir o moral dos combatentes mineiros e cariocas, os mais visados, com questionamento como: “até quando ficarão prostrados diante dos desmandos de um ditador?”. Petronilho Theodoro da Silva é o único revolucionário paulista ainda vivo dentre o grupo de voluntários francanos que participou do conflito. Aos 101 anos, o baiano de nascimento lembra os mínimos detalhes dos primeiros combates, quando tinha 23 anos de idade. Após alistar-se em Franca foi destacado para servir em Rifaina. “Como a coisa estava meio fraca por lá, meu coronel mandou que eu fosse para a região de Mococa”, conta ele, afirmando que tem certeza de nunca ter matado nenhum oponente. “Eu atirava do joelho para baixo ou acima da cabeça; nunca para matar”. diz. Para Petronilho, como o próprio frisou várias vezes rindo, a guerra era uma festa. “Quando começavam a atirar eu achava o máximo. Todo mundo era aventureiro naquele tempo”. Mas de aventura ou de festa a Revolução Constitucionalista de 1932 não teve nada. Com os soldados esmagados pela superioridade das tropas legalistas e com a economia em frangalhos, o Estado de São Paulo se rende na frente sul, em Registro e Cruzeiro. Ao final do conflito foram declarados 700 mortos do lado paulista, embora o número possa ter sido muito superior a isso. Nove dessas vítimas estão enterradas no mausoléu do soldado constitucionalista, em Franca. Do lado do governo federal os números nunca foram divulgados. Para o historiador José Chiachiri Filho, a participação de Franca foi expressiva. Da cidade, com pouca ou nenhuma experiência em armas, saíram voluntários para lutar em diversas frentes, sobretudo no sul do Estado, onde ocorreram os enfrentamentos mais severos. Segundo ele, se do ponto de vista militar, a revolução foi uma irresponsabilidade, já que não havia como vencer as tropas de Vargas, sob o aspecto social o confronto foi amplamente significativo. “Os jovens, que foram os que morreram em maior número, lutaram pela liberdade, que chegou ao resto do País pelas mãos dos revolucionários paulistas. Tinha muito interesse dos grandes produtores rurais, tinha um aspecto separatista também”, disse Chiachiri. “Creio que a juventude deva prestar sua homenagem àquelas pessoas pela liberdade que tem hoje”, completa. COMEMORAÇÃO A Prefeitura promove hoje, às 9 horas, na Praça Nove de Julho, homenagem aos combatentes de 32. Petronilho Silva confirmou presença no evento. Mesmo com o feriado, todo o setor comercial funcionará normalmente hoje. Já bancos e repartições públicas permanecerão fechados.

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