Déjà vu


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Duas frases, ditas pelas mais expressivas personalidades políticas a percorrer os corredores da Francal nesta última semana, sintetizam com admirável precisão alguns dos mais importantes desafios que deveriam ser enfrentados pelos líderes da indústria calçadista, notadamente de Franca. A primeira saiu da boca do presidente da República em exercício, José Alencar, ainda na abertura da feira. No seu discurso, Alencar arrancou aplausos da platéia ao defender o que chamou de “reforma de mentalidade”. Em suas palavras, seria essencial que os brasileiros entendessem e valorizassem o lucro, que gera emprego e traz prosperidade. “O lucro é saudável, o que não é saudável é o prejuízo”. A outra frase relevante partiu de Miguel Jorge, Ministro da Indústria e Comércio, durante entrevista no estande do Comércio/Difusora, na noite da última quinta-feira. Questionado sobre eventuais medidas de proteção ao setor calçadista que poderiam ser adotadas pelo governo federal, o ministro tascou: “A indústria é que tem que defender a indústria”. Ambas as frases embutem conceitos - óbvios e verdadeiros - ignorados há décadas em Franca. Para começar, é difícil, para não dizer impossível, encontrar um calçadista francano que queira celebrar qualquer coisa. Acompanho pessoalmente a Francal no Anhembi há dez anos. Neste período, houve momentos de tensão na economia e outros tantos de euforia. O que nunca se vê, com raríssimas exceções, é calçadista comemorar. Se o dólar está baixo, ele reclama. Mas quando estava a R$ 4, igualmente se queixava. Se FHC é presidente, não presta. Se Lula comanda o País, também não serve. Nossos calçadistas são, em sua maioria, tacanhos, e, tal qual a pior tradição católica possível, confundem lucro com usura. Assim sendo, um pecado. Ensimesmados, fogem da celebração dos resultados com medo das reivindicações que seus funcionários possam fazer. Fossem jogadores de futebol, teríamos nos calçadistas uma espécie única de atleta, que economizaria gol para evitar a cobrança da torcida. Em uma década de feira, conto nos dedos de uma mão as vezes em que vi um expositor de nossa cidade oferecer um coquetel que seja para comemorar os bons resultados de uma Francal. Nossos industriais igualmente não sabem se defender. Desconhecem o que é lobby (lícito, bem dito), acham que toda ação de incentivo ao setor deve vir do governo e nunca estão dispostos a colocar a mão no bolso para nada. Da mesma forma, não participam da vida comunitária, não apóiam projetos sociais (com exceções ainda mais raras do que aqueles que celebram), não patrocinam nossos times, não financiam as campanhas de nossos políticos, não apóiam projetos culturais. Não se ligam afetivamente à comunidade e a quem nela reside o que inclui os milhares de trabalhadores de suas fábricas e os líderes políticos de toda essa gente. Depois, quando apertados, correm para pedir socorro. Em vão. O novo presidente do Sindicato da Indústria de Calçados de Franca, José Carlos Brigagão, promete uma revolução. Quer modernizar a indústria, transformar as mentalidades, despertar suas atenções para a importância de design e marketing, de treinamento e qualificação, e levar para o sindicato fabricantes até hoje alheios à entidade. Brigagão está entusiasmado e quer fazer. Vou torcer, mas com um pé atrás. Foi o próprio Brigagão quem, sem saber, conteve meu ânimo. Durante sua visita ao nosso estande, disse que já tem pronto o discurso de posse. Vai utilizar o mesmo que fez há 22 anos, quando presidiu o sindicato pela primeira vez, e que à época foi registrado na íntegra pelo Comércio. O recorte do jornal Brigagão mantém intacto. “Tudo que falei naquela época vale hoje”. Sei lá, mas acho que se o diagnóstico de 22 anos atrás para o setor se mantém inalterado até hoje, será muito difícil que Brigagão consiga fazer a tão necessária “reforma de mentalidade” e mostrar à indústria que ela mesma, e não o governo, é que tem que se defender. Torço pelo contrário, mas o mais provável é que o tamanho do desafio seja muitas vezes superior ao entusiasmo de Brigagão. CORRÊA NEVES JÚNIOR é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

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