A fábrica que nasceu da produção tímida no fundo do quintal e se tornou uma potência. A loja de roupas criada pelo casal na sala de estar que hoje emprega toda a família. O varejão onde trabalham os fundadores, seus filhos, netos e respectivos(as) companheiros(as). Essas são algumas histórias que ilustram empresas familiares nascidas em Franca. Exemplos não faltam, de todos os ramos: calçados - é claro -, alimentos, confecções, refrigerantes, supermercados, farmácias, escolas, veículos, lingeries, auto-escolas e outras. Algumas ainda permanecem restritas aos laços familiares e outras iniciaram as atividades em família, mas com a expansão, empregam mão-de-obra na administração a quem não tem parentesco.
Não existem estatísticas sobre esse tipo de sociedade. O Ministério do Trabalho, Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) de Franca e Ipes (Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais) do Uni-Facef não têm dados, mas todos os especialistas consultados afirmaram que empresas familiares são predominantes na cidade. São tão comuns que o economista Hélio Braga, pesquisador do Ipes, chegou a brincar que “de 10, 11 empresas são familiares”.
Embora comum, para especialistas, esse tipo de sociedade é arriscado. Uma empresa pode nascer no seio familiar e morrer nele se não sobreviver aos “gargalos” deste tipo de negócio. Em Franca há exemplos de sucessos e insucessos. A não profissionalização é um dos principais “crimes” cometidos. “O não preparo dos sucessores é comum e isso leva a empresa a perder totalmente seus objetivos. As pessoas são levadas ocasionalmente ao posto. Com a sucessão e o passar dos anos, estas empresas acabam no raquitismo e inadimplência até encerrarem suas atividades, deixando um leque de dívidas”, disse Daltro de Carvalho, economista com mestrado em Gestão Empresarial.
Um exemplo clássico da “sucessão perigosa” ocorreu com a Calçados Samello. Criada em 1926 por Miguel Sábio de Mello, foi assumida pelos filhos e netos dele ao longo das décadas. Nos anos 90, no seu auge, a empresa empregou 3 mil pessoas e chegou à produção de 12 mil pares por dia. No final de 2005, o grupo enfrentou séria crise e fechou as portas no ano seguinte depois de demitir 1.800 funcionários e alcançar uma dívida de R$ 90 milhões. Agora, a empresa voltou a engatinhar e tenta pagar as dívidas e retomar a produção.
O consultor internacional de indústrias calçadistas, Zdenek Pracuch, que acompanhou a expansão da gigante na década de 60, classificou a atuação dos sucessores como irresponsável. “A sucessão familiar foi um problema na Samello, na Agabê e quase no Amazonas. (Na Samello), os meninos da segunda geração acham que dinheiro cresce na árvore. Assim fica difícil convencê-los a realmente poupar como os velhos fizeram e dar valor ao dinheiro. A Samello foi um desperdício absolutamente incrível. Para fazer dívida de R$ 90 milhões numa fábrica de calçados precisa ser genial. Foi despreparo, obviamente, mas foi uma gestão muito irresponsável”.
Miguel Sábio de Mello Neto, presidente do Grupo Samello, foi procurado pela reportagem para comentar o assunto durante três dias seguidos na empresa e no celular, mas não atendeu e não retornou os recados deixados.
A potência Magazine Luiza também é genuinamente familiar, mas tem uma trajetória diferente, de crescimento. O grupo completou 50 anos no ano passado. Em 1957, o casal Luiza Trajano Donato e Pelegrino Donato comprou a “A Cristaleira” e a renomeou Magazine Luiza após um concurso popular por um nome, através do jornal Comércio da Franca. Com o tempo, irmãos, cunhado e sobrinhos de Luiza e Pelegrino passaram a fazer parte do negócio. A empresa se tornou a terceira maior rede varejista do Brasil, possui mais de 390 lojas no País e, há 11 anos consecutivos, é considerada uma das melhores empresas para se trabalhar, segundo pesquisa do Instituto Great Place To Work, veiculada pela Revista Época.
Para o gerente da loja central do Magazine Luiza, Matias Taveira, o comprometimento e preparo para a função são os maiores responsáveis pelo sucesso e expansão da rede. “O Magazine é familiar, está na terceira geração, porém é preparada e trabalha com responsabilidade, pessoal formado e pronto para ousar, inovar”, disse.
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CAMINHANDO
Mais nova, a New House, loja de roupas e acessórios, emprega a família inteira. Dalva Costa Araújo, 47, começou a vender roupas há 13 anos e hoje trabalha ao lado do marido, Vanderlei Araújo, 53, que se aposentou como gerente de uma fábrica de calçados, a filha Talita, 25, e o caçula Gustavo, 23. “A loja sustenta a família inteira. Achava que meus filhos fossem seguir outros caminhos”. Talita se formou em Direito e Gustavo fez Administração de Empresas.
Além do curso superior, cursos e leituras de livros sobre vendas são uma constante na família. Disciplina também garante o sucesso dos negócios. “Cada um tem sua função. Eu compro as mercadorias e organizo a vitrine, meu marido faz movimento bancário, minha filha cuida das vendas e meu filho da parte de administração. Meus filhos são funcionários, registrados, com horário a ser cumprido e responsabilidade. Tem de ter disciplina para dar certo”, ensina Dalva, que ainda tem duas funcionárias.
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