Desde o início do ano, Emílio Antoniete Neto, 22, aluno do terceiro ano do ensino médio da Escola Estadual “João Marciano”, trocou o material que leva para as aulas. No lugar de folhas de sulfite, transporta em sua bolsa um notebook. Emílio nasceu com problemas genéticos e não enxerga. Antes, as matérias eram registradas em braile, mas agora podem ser gravadas no computador ou em um pen drive.
Em Franca, Emílio é um dos cinco alunos deficientes visuais da rede pública beneficiados por um programa do governo federal que empresta computadores portáteis para estudantes cegos. No Brasil, até o fim de 2008, 1.100 estudantes dos ensinos fundamental e médio receberão as máquinas.
Além de fazer parte da inclusão digital, ficou mais fácil para Emílio e outros alunos “assistirem” às aulas e os professores acompanharem suas produções, pois não estão preparados para ler braile. “Facilitou muito. Na máquina de braile, era tudo feito manualmente. Tinha de trocar as folhas a toda hora. O computador é mais prático. É só eu ligar e usar”, disse Emílio.
Guilherme Azevedo, 17, estudante do ensino médio da Escola Estadual “Ana Maria Junqueira”, também nasceu com má-formação genética e só enxerga vultos. Ele foi contemplado com um laptop do governo em agosto de 2007 e também elogiou a praticidade do computador portátil. “É bom ter esse auxílio. O braile é bom, mas deixa a desejar. Uma página a tinta corresponde a três, quatro em braile, é bem mais volumoso. Além dos professores não serem capacitados para ler braile. Com o computador, já acompanham na hora”, disse ele. O barulho da máquina também incomodava a classe.
Na Escola “João Marciano”, a professora de História Marley Borges, 47, teve a oportunidade de dar aulas para Emílio com o sistema braile e o computador e disse que com o segundo ficou mais fácil para os dois lados: alunos e professores. “Monto apostilas, algum aluno dita para o estudante, ele digita e depois eu corrijo no notebook para ele. Antes o que vinha em braile, ele tinha de ler para a gente, porque não temos nenhum professor que tenha conhecimento em braile. Era mais difícil”, comentou.
COMO FUNCIONA
Antes de receberem o notebook, os alunos já haviam tido contato com informática, normalmente na Sociedade dos Cegos. Para que os estudantes possam ter acesso aos programas, livros digitalizados e à internet, os computadores possuem dois softwares especiais -Dosvox e Virtual Vision -que sonorizam as letras e palavras digitadas e lêem textos acessados.
Para digitarem os textos, os estudantes se guiam pelas letras “F” e “J”. Essas teclas possuem traços em alto relevo que permitem a eles se orientarem. Nas escolas, os deficientes visuais contam com a solidariedade dos colegas para acompanharem as aulas. Os outros alunos fazem rodízios e cada dia um fica responsável por ditar a matéria dada pelos professores enquanto os estudantes especiais digitam o material.
Para ser beneficiado pelo programa, a escola onde o aluno deficiente estuda deve solicitar o notebook ao MEC (Ministério da Educação), na Seesp (Secretaria de Educação Especial). O computador é doado para a escola, que será responsável pela guarda e manutenção dele. O empréstimo é feito enquanto o aluno estuda. Em Franca, os cinco contemplados estudam nas escolas estaduais “João Marciano” e “Ana Maria Junqueira”.
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