Estimular a capacidade de criar cenários mentais deveria ser palavra de ordem dentre os humanos. Infelizmente, não é. À cada dia, ao invés de pensar soluções criativas e inéditas para os gargalos que a vida apresenta, aumenta o gosto pela força.
Faço hoje, aqui, uma pequena colcha de retalhos sobre fórmulas não convencionais utilizadas por alguns, seja para fugir do lugar comum, seja para tornarem-se diferentes dos outros ou seja apenas para estimular mesmo as capacidades que os cientistas dizem que temos, mas não usamos.
Tenho um amigo que quer ser presidente do futebol da Francana para remeter o clube ao que chama de “Rumo a Tóquio”. Inconseqüente? Vejamos: ele afirma que a Francana não conseguirá, tão cedo, sair da Série A-3 do futebol de São Paulo. Enumera, dentre os problemas que o clube tem que enfrentar, a falta de estrutura para formar jogadores, a falta de dinheiro para contratar, a falta de representatividade gerada por atuar em campeonatos sem expressão. Crível.
Defende, para levar o clube ao mundial de Tóquio, que a equipe permaneça exatamente onde está – a Série A-3 – e não faça planos mirabolantes para subir à A-2 e muito menos à A-1. Ele garante que, se por mágica o clube conseguir os acessos, não terá condições de se sustentar e cairá novamente. De novo, coberto de razão.
Aí, começa a divagação: qual o caminho mais rápido para ir a Tóquio? Segundo ele, a Copa FPF, da Federação Paulista, para a qual a Francana sempre é convidada e sempre se furta a jogar. Menos este ano, no qual joga sim.
Então, RC (vou chamá-lo assim) defende que a Francana gaste o que puder para montar sua melhor equipe justamente para esta Copa. Diz que os jogadores teriam mais exposição e, portanto, se entregariam mais dura tarefa de colocar a perna nas divididas dos jogos. Além disso, não se furtariam a jogar um campeonato que classifica diretamente à Copa do Brasil, ao contrário do que fazem quanto lhes é dito que a equipe disputa uma divisão qualquer do Estado. “Em um campeonato mais difícil – prega ele – a torcida teria a chance de ver equipes mais conhecidas e, em troca, levaria mais recursos ao clube”.
E RC continua: “vencendo esta e mais a Copa do Brasil(!), jogaria a Libertadores(!) e vencendo de novo, iria a Tóquio...”. Uau!
E resume: “A Francana, brincadeiras à parte, deveria fazer da Copa FPF sua principal competição no ano e não a Série A-3”. Ousada e criativa a proposta; mas há alguém que conteste? RC comentou o propósito com o presidente José Servino Braga e com o atual técnico, Sérgio Caetano. Sérgio tascou um “Lógico. Deveria ser”. O presidente Braga ouviu...
Praticar criatividade é deixar fluir as idéias, mesmo as mais estapafurdias, sem ajuizá-las, num primeiro momento. O segundo estágio é depurar. Alguns depuram elegendo prioridades: “de todas as idéias malucas, qual a que tem melhor possibilidade de acontecer? Esta e depois aquela? Então vamos tentar.”
Thomas Alva Edson queria conceber algo que iluminasse o mundo. Fez acontecer, depois de milhares de tentativas, o que todos consideravam loucura. Santos Dumont, em fazer voar o “mais pesado que o ar, conduzindo um homem”. Quem fez a primeira roda. É interessante exercitar a criatividade tentando entender os usos que talvez tenham sido dados à primeira roda. Mesa sem cantos?
Prego, em treinamentos que ministro na área de Comunicação Oral e Gestual, a que meus treinandos exercitem a cultura fazendo palavras cruzadas. Dizem eles que não têm tempo para brincadeiras.
Digo-lhes que deixem as “cruzadas” nos banheiros, local onde o tempo pode – e deve – ser utilizado também em causas mais nobres... No fim, concordam. Muitos já me agradeceram porque as “cruzadas” os ajudaram a melhorar o vocabulário e, por extensão, a fala, a escrita e a... criatividade.
Está claro que alguns integrantes de torcidas organizadas de futebol, motoristas alcoolizados e brucutús que preferem exibir força ao invés de inteligência, continuarão usando sanitários para os fins específicos para os quais foram criados. Uns e outros, aliás...
EM SÃO PAULO
Praça Bagatele, imediações do Campo de Marte, São Paulo, capital. Dia quente. Congestionamento. Um motoqueiro pára ao lado de um carro de passeio. Vê, como acompanhante do motorista, uma moça. Põe-se a olhar as pernas dela. Esquece-se de onde está e deixa a moto encostar no carro. O trânsito flui. O motorista do carro persegue a moto. Pára tudo. O motoqueiro é cobrado em altos brados. Em alguns casos, é aí que explode um tiro. Ali, pediu desculpas que foram aceitas. Menos pior.
CICLO
Semana passada, Maria Ignez Tosello Archetti, uma das personalidades escolhidas para dar vida ao projeto “Colunistas Locais” do Comércio, encerrou seu ciclo no periódico em função da homologação de seu nome como candidata a vereadora nas próximas eleições. Escreveu sobre cidadania por mais de uma ano, sempre às sextas-feiras, conquistando público e direcionando a muitos para a vida solidária. Como editor, foi honroso trabalhar com ela. Assumiu o espaço Alexandre Leonel, dono de um interessante estilo de texto e de um estimulante espírito crítico. A roda do mundo gira...
REFORÇO POSITIVO
É indispensável na vida das pessoas. Um tapinha nas costas, no momento certo, diz mais que um milhão de palavras. Vale muito mais que dinheiro. Estimula. Concede confiança. Agrega. Infelizmente, essa é uma ferramenta pouco ou quase nada utilizada nos lares, no grupo de amizade, nas relações comerciais, entre comandantes e subordinados dentro das empresas.
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br
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