Cuidado com os óculos


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Fiz uns óculos, sob receita médica, o motivo era para não pular linhas quando lesse; não enxergar truncado as palavras; ter maior conforto e melhoria de nitidez na captação das imagens que visse. Tenho que admitir que enxergar com os óculos não é somente mera indicação oftálmica, mas necessário para se evitar, por exemplo, os lapsos. Que o diga meu editor deste Comércio, maior testemunha das minhas distrações ortográficas. Mesmo assim, por força do “não-hábito”, quase não uso os óculos por “achar” que estou vendo claramente, enquanto na verdade, precisaria sim usá-los, evitando os desconfortos que trarão conseqüências futuras, evitando erros primários, facilitando as coisas para mim mesmo. Ao perceber a importância do uso do par de lentes, procurei corrigir-me desta “auto-desobediência” descabida e mimada. Tentei fazer uma analogia da questão levando para o meu dia-a-dia tal situação, indagando-me: e seu eu também precisasse de uns “óculos” para poder enxergar melhor o que ocorre no mundo lá fora: os fatos e acontecimentos das mais diversas ordens que pipocam a todo instante; o comportamento das pessoas numa sociedade cada vez mais competitiva e feroz. Então, deveria eu colocar um outro tipo de óculos, os da “lucidez” - sempre que fosse pensar, formular, formar e emitir opinião, aflorando o senso crítico perante circunstâncias naturais da vida, não incorrendo no risco em ser estúpido por não compreender algo como deveria assim como nos bobos erros ortográficos que cometo quando não uso os óculos normais. Nos primeiros dias já era possível sentir sérias dificuldades de adaptação, aqueles óculos da lucidez incomodavam sobremaneira a ponto de quase me fazerem desistir de vesti-los. A consciência doía, a tristeza e o desalento corroíam o coração. Aqueles “óculos” me fizeram ver as desigualdades gritantes existentes numa cidade, ainda pequena, como a nossa; outrora hospitaleira e de um povo (em sua grande parcela) generoso e alegre, disposto a estender a mão ao desprovido de sorte, ficando visível que a sociedade demonstra ceticismo e distanciamento das causas sociais. Muitas das entidades “filantrópicas”, instituições “religiosas” e de órgãos oficiais em “Educação” e “Bem-Estar” social, se omitem vergonhosamente agravando os quadros, dando quase para enxergar (sem medo de errar) que estamos fabricando de “fornada” delinqüentes que logo cobrarão por nossas omissões. Estes óculos da “lucidez” são implacáveis mesmo, vê-se através deles: políticos mentindo e enganando a todo tempo; novelas, seriados, jogos e programas de TV visando entreter-nos e assim, não atentarmos a fatos e coisas para as quais deveríamos voltar nossa atenção. A experiência que fiz ao usar os óculos da “lucidez” foi reveladora, entretanto, enxergar um pouco além pode trazer sofrimento. Ficarei com o meu mesmo, o convencional, de armação e duas lentes, feitos para leitura. Aprendi agora a dar valor neles. Mas os da lente da “lucidez” se puder evitar não usarei pois ela mostra muito e atinge a consciência. Algo para se usar quando é possível causar mudanças satisfatórias. Do contrário, é bom guardar, e não se decepcionar... Ricardo Veríssimo Funcionário público e conselheiro do Comércio da Franca

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