Acostumada a lidar com a colheita de café há anos, a cafeicultora Flávia Lancha Alves resolveu dar mais atenção aos funcionários depois de perceber que alguns deles eram totalmente analfabetos.
Mesmo sem ter muitas ocupações, as mulheres não aproveitavam o espaço que tinham na colônia onde moram dentro da fazenda. As crianças não tinham nenhum tipo de lazer e tinham baixa auto-estima por se sentirem diferentes dos colegas que estudavam na cidade. Ao prestar atenção a esse cenário, em 2002, Flávia e o marido Gabriel Alves de Oliveira implantaram o projeto Ampliando Horizontes. O programa funciona na Labareda Agropecuária, dentro da Fazenda Bom Jesus, na divisa dos municípios de Cristais Paulista e Ribeirão Corrente.
Um depósito foi reformado e adaptado para se transformar em sala de aula. Ganhou até ar condicionado. O projeto atende 64 pessoas entre homens, mulheres e crianças. Os encontros acontecem sempre às sextas e sábados. A turma é dividida em grupos. As mulheres são as primeiras. Toda sexta-feira elas se encontram das 15 às 17 horas para desenvolver trabalhos de artesanato, como pintura em pano de prato e tapeçaria. Também recebem informações sobre culinária. As professoras são Lucileida Mara de Castro - que durante a semana trabalha em uma escola particular em Franca - e Carla Bastianini, 20, que começou a trabalhar na escolinha da fazenda aos 14 anos, junto com a mãe. “Ela não pôde continuar e eu fiquei.
Esse projeto é muito gratificante para mim e principalmente para o pessoal da fazenda que fica com uma melhor auto-estima”, disse Carla. “Trabalhamos receitas simples e de baixo custo. No começo, tínhamos apenas duas alunas, mas o sucesso foi tanto com os maridos que outras ficaram sabendo e começaram a freqüentar também”, disse. Hoje são 12 alunas que não perdem uma aula. Elas também aprenderam a aproveitar os quintais para plantar hortas.
“Antes elas compravam tudo na cidade”, lembra a professora.
Depois das mulheres, é vez dos homens. Mesmo cansados do trabalho, um grupo de 30 homens se encontra das 19 às 21 horas para as aulas de português. No começo, foi preciso formar turma de alfabetização. Entre os alunos estava Sebastião Gomes, 47. A vontade de aprender a ler surgiu depois que o patrão o convidou para se tornar fiscal da mão-de-obra. “Fiquei muito feliz com a proposta, mas respondi a ele que não poderia assumir a função porque eu não tinha ‘leitura’. Foi aí que decidi freqüentar as aulas”. Depois de aprender a escrever e a ler, Sebastião tirou CNH e hoje é o supervisor de mão-de-obra. Ele coordena 300 pessoas.
Além das aulas de português, os funcionários também têm acesso a computador. O auxiliar de mecânico Edivan dos Reis, 19, aproveita as aulas de sexta-feira para dar uma espiadinha nas últimas notícias sobre esporte. “Eu não tinha contato com computador. Foi aqui na fazenda que comecei a usar. É muito bom porque a gente aprende muitas coisas”. O tratorista Leandro Pimentel, 23, está há seis meses na fazenda e não perdeu tempo. Já freqüenta o projeto junto com os colegas de trabalho. “Já trabalhei em outras fazendas e nunca tinha visto um projeto como este”, disse ele que estudou até a 8ª série e agora sonha em continuar os estudos.
Quando começou com o Ampliando Horizontes, Flávia não imaginou que o projeto cresceria tanto. “Não tinha noção de até onde o projeto ia chegar. Hoje vejo que acertei. As crianças, por exemplo, antes sentiam diferença em relação aos colegas da escola por morarem em fazenda. Hoje elas sabem conversar sobre tudo. Também fiquei orgulhosa ao ver que um funcionário que antes era analfabeto, hoje se tornou o chefe dos braçais e é responsável por me apresentar os relatórios. E ele faz muito bem”, disse.
Ao aprender a ler, os funcionários também realizaram sonhos. Oito deles tiraram carteira de habilitação. “Fizemos a preparação deles na escola com testes simulando o dia da prova”, explicou Lucileida. Outro funcionário entrou para a faculdade e hoje cursa administração. Há ainda aqueles que fizeram cursos de técnicos de segurança do trabalho e supletivo a distância.
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