<p>No ano em que o Comércio da Franca completa seus 93 anos de circulação, um desafio recai sobre a empresa: o de pensar e fazer com que a imprensa local e regional se fortaleça ainda mais. Líder em todas as pesquisas de opinião, o jornal está funcionando em um prédio novo há um ano. A mudança, por si só, não seria tão simbólica não fosse a ligação histórica que a empresa tem com sua comunidade, com o centro de Franca, com a cidade. De 1995 para cá, novos ares deram novos rumos ao jornal que se multiplicou em projetos, tamanho, funcionários e faturamento. Hoje, sob a batuta de Corrêa Neves Júnior, ou apenas Júnior, como os companheiros de redação o tratam, o Comércio da Franca cresce num ritmo superior ao de outros órgãos de imprensa, sendo, em alguns momentos, difícil de acompanhar. “Temos comemorado ótimos resultados, mas há situações que não conseguimos administrar como gostaríamos, como, por exemplo, a demanda por novos cargos e novos profissionais”, disse ele. </p><p><br />Já esgotado em sua capacidade, o prédio, no Jardim Ângela Rosa, abriga 270 profissionais em diversas categorias, funciona ininterruptamente e, mesmo assim, está vendo chegar cada vez mais novos produtos, em forma de revistas e edições especiais. Ao conquistar o respeito de empresários e veículos de comunicação de todo o Estado de São Paulo, o Comércio da Franca, mais que nunca, como disse Corrêa Neves Júnior, firmou-se como um importante órgão de imprensa, agora inserido no Grupo Corrêa Neves de Comunicação, ao lado da Rádio Difusora, outra líder de audiência. Com a determinação de fazer com que as duas empresas mantenham seu crescimento, este jornalista quer despersonificar o grupo, tirando sua figura do centro das decisões cotidianas, ao contrário do pai, que tinha sua imagem misturada à do jornal, sendo quase impossível dissociar um do outro. A seguir, a entrevista dada no restaurante do Comércio.</p><p> </p><p><strong>Comércio da Franca - Nossa conversa começa pela configuração que o jornal tomou nos últimos dois ou três anos. Esse avanço foi premeditado? <br />Corrêa Neves Júnior -</strong> Em certa medida, sim, mas nós acertamos no rumo e erramos no ritmo. Quando este prédio foi adquirido e reformado, era óbvio que não havia saída que não fosse vir pra cá. Para nós, esta seria uma solução que duraria pelo menos dez anos. Mas o fato é que completamos agora o primeiro ano de casa nova e o prédio já está com sua capacidade esgotada. Não cabe mais nada. Acabamos de alugar um imóvel em frente para colocar algumas áreas administrativas que não têm como se instalar aqui. Temos comemorado resultados muito positivos, pois, na média, os jornais brasileiros registraram crescimento de mais de 24% no primeiro trimestre, um recorde histórico. Só que, no mesmo trimestre, nós crescemos 39,4%, quase duas vezes mais rápido. A Rádio Difusora cresceu 50,1%. É um ritmo difícil de gerenciar. Toda semana há demanda por novos cargos, funcionários.<br /></p><p><strong>Comércio - Que outras mudanças e apostas foram feitas?<br />Júnior -</strong> Fizemos apostas em outras áreas, que vêm se mostrando acertadas. O segmento de revistas vem dando muito certo e será ampliado. O jornalismo da Difusora será intensificado. Vamos começar a operar como gráfica comercial, por isso mais pessoas serão contratadas. Não será uma gráfica para imprimir pequenos trabalhos, mas para empresas, associações e outros jornais e instituições que precisem de milhares de impressos em curto prazo. O portal da internet também será reestruturado. Temos os projetos, mas tudo depende de conseguirmos dominar essa velocidade de crescimento que nos apresenta desafios diários. Falta gente!<br /><br /><strong>Comércio - A família apostou na compra de uma rádio como forma de ampliar sua cobertura regional, mas, obviamente, buscando maior lucratividade. O encontro entre esses dois veículos de comunicação deu certo?<br />Júnior -</strong> É uma pena que os acadêmicos de jornalismo ou ciências sociais não estudem isso o que acontece aqui, em Franca. Eu não sei se, isoladamente, rádio e jornal conseguiriam repetir o resultado que obtiveram juntos. No nosso caso, foi uma química que funcionou muito bem. O jornal atingiu uma faixa de público que não alcançava e a rádio ganhou mais seriedade. A empresa tem que dar lucro para o acionista, para o funcionário, e, se você não tem segurança financeira, você não pode roncar grosso, como ser independente. Isso funciona nos dois casos. E nós temos como roncar grosso hoje. Ninguém nos tutela. Só nossos princípios e o compromisso com o leitor e o ouvinte. Quando fomos trabalhar juntos, era para ganhar. Eu acho que seria impossível que o jornal tivesse, sozinho, enviado uma equipe para cobrir a liga sul-americana de basquete, por exemplo, no Chile, na Argentina e no Uruguai. Porque é caro, dispendioso. No entanto, jornal e a rádio juntos puderam fazer isso com equipes completas. É um investimento que vem dando certo.<br /></p><p><strong>Comércio - De repente você tem uma emissora de rádio mais lucrativa que o jornal, que é o meio que a empresa originariamente administrava. Isso cria apreensão?<br />Júnior -</strong> É uma situação prazerosa. A Difusora é como se fosse um filho inesperado, que dá mais alegrias do que você imaginava. Tudo no jornal eu conheço e sei fazer. No rádio, não. Estamos aprendendo e os resultados da Difusora são impressionantes. Não conheço, mas até gostaria de conhecer, alguma outra emissora com resultados similares aos da Difusora, seja em faturamento, penetração, audiência, relevância para o ouvinte. É a rádio AM que, de longe, tem o melhor desempenho da região. <br /></p><p><strong>Comércio - Há algum plano para rodar o jornal às segundas-feiras e entrar no negócio de televisão?<br />Júnior -</strong> Uma emissora de TV depende de concessão e o governo não dá sinais de abrir concessões em Franca, coisa que eu gostaria de disputar. Somos muito cobrados nesse sentido, mas é um projeto que não depende de nós. Um canal fechado seria mais simples, mas é muito limitado, com um público muito pequeno. Quanto a circular às segundas-feiras, estamos prontos. Entretanto, parece que as pessoas não querem ler jornal na segunda. Se você pegar os maiores jornais do Estado, incluindo os da capital, é tradicionalmente o pior dia de circulação da semana. Tivemos uma experiência parecida circulando este ano em todos os dias pós-feriado, mas o retorno tem sido pequeno, com vendas fracas.<br /><br /><strong>Comércio - A liderança do jornal é inquestionável, enquanto a rádio, embora também líder, tem as concorrentes mais perto. Quando não houver para onde crescer em Franca, o ‘Comércio’ vai estudar sair dos limites do município?<br />Júnior -</strong> No jornal, cada pesquisa que sai apenas reafirma que estamos na frente. Só espe-ramos isso. Não é disputado, como ganhar um jogo por 2 a 1. De cada 100 pessoas que lêem jornal, 93 lêem o Comércio. Nenhum outro jornal faz sombra ao Comércio. Na rádio, o resultado não é assim. Não há um histórico de vitórias com liderança imbatível da Difusora. Estamos construindo essa tradição agora. Existem outras rádios disputando o mercado, suas atrações, seus consumidores. Então, a cada Ibope, é sempre uma apreensão. Mas, no último, alcançamos audiência recorde para uma emissora em Franca, com mais da metade dos ouvintes (52% de audiência). Temos que estar estruturados para competir em outro mercado. Franca é nossa casa, onde conhecemos os bairros, as necessidades, as pessoas. Veículos de comunicação só dão certo se estiverem associados às suas comunidades. Acho que, em algum tempo, teremos que romper nossas fronteiras, mas não sei para onde. Seja com jornal, revista ou eventual aquisição de algum veículo, não sei; mas precisamos crescer.<br /></p><p><strong>Comércio - É comum que algumas empresas sejam personificadas na figura de seus donos. O que o seu pai deixou que não serve e o que ele fez que você reconhece?<br />Júnior -</strong> Eu tenho tanto problema que meu pai deixou para resolver que não tenho opção, como não tinha. O jornal estava mal instalado, defasado em tecnologia. Quando eu visitava outros jornais, eu ficava com inveja; hoje não conheço nenhum melhor, mais bem estruturado. Mas o que houve com o meu pai foi um processo natural. Quando morreu, ele tinha 77 anos e não queria arriscar mais. Você precisa de certa audácia, e até inconseqüência, para avançar, e isso vai desaparecendo com a idade. Eu não posso me aposentar hoje, renunciar à vida, enquanto que quem passou dos 70 quer tranqüilidade. Meu pai teve coragem de comprar o jornal aos 40 anos e conseguiu fazer mudanças importantes, porque o jornal como empresa não era nada, era irrelevante.<br /></p><p><strong>Comércio - Quase uma Francana...<br />Júnior -</strong> É. Uma coisa pela qual você nutre paixão, mas que não te dá resultado nenhum. Eu gostaria de manter a coragem e a capacidade de antever as possibilidades, capacidade de antecipar que pode ser importante no futuro, como meu pai tinha. Mas pretendo despersonificar o jornal. É ruim ter uma empresa tão intimamente associada ao seu proprietário.<br /></p><p><strong>Comércio - Você profissionalizou vários setores da empresa nos três últimos anos, destacando-se o departamento comercial e administrativo. A redação perdeu espaço no novo jornal ou ela ainda é o umbigo da empresa?<br />Júnior - </strong>É e continuará sendo a mais importante. Primeiro pelo o que custa e representa. A redação sozinha tem 60 profissionais. O que acontece é que o profissional bem informado, apaixonado pela notícia e pela informação, com capacidade de discutir qualquer assunto, que busca uma outra faculdade porque quer conhecimento, está raro. Jornalista era um profissional diferenciado. Hoje está como qualquer outro. Mas é e será sempre o coração de nossas empresas.<br /></p><p><strong>Comércio - Jornalismo é conhecimento ou diploma?<br />Júnior -</strong> É claro que é conhecimento. É óbvio. Em praticamente nenhum outro país existe a obrigação do diploma para exercício da profissão. Jornalista, que tem por função questionar tudo, só não questiona essa lei esdrúxula, resquício da ditadura militar. O fato de não exigir o diploma em jornalismo não quer dizer que você não queira um profissional com sólida formação em alguma área de co-nhecimento, com domínio de idioma entre outras habilidades. Além, claro, de bem remunerado.<br /></p><p><strong>Comércio - Como se vê hoje as decisões da Justiça quando a imprensa é parte?<br />Júnior -</strong> Como os juízes não sabem e não conhecem como funciona um jornal, TV ou rádio, eles acabam decidindo mal. O maior problema é que os juízes não querem conhecer. Eles devem, sim, decidir com base no que está nos autos do processo, mas, muitas vezes, decidem errado porque não têm a mínima idéia do que estão julgando. Os juízes deveriam descer do pedestal, conhecer nosso trabalho, que é sério e íntegro de perto, para, aí, sim, emitir sentenças justas, coerentes.<br /></p><p><strong>Comércio - Quem consome informação tem essa percepção?<br />Júnior -</strong> Na cabeça do leitor e do ouvinte, se é verdade, tem que ser publicado ou divulgado. Infelizmente, a Justiça brasileira nem sempre entende assim. Os juízes entendem que a notícia, mesmo sendo absolutamente verdadeira, se causar algum dano à imagem, caberá reparação e indenização. Com isso, chegamos ao cúmulo de ter traficante processando o jornal por ter sua foto publicada. Perdemos alguns processos em primeira instância, mas ganhamos no tribunal em 95% dos casos.<br /></p><p><strong>Comércio - Com isso, em sua opinião, o direito à imagem deveria ser uma preocupação do jornalista?<br />Júnior -</strong> Claro que não. Em outros países, não é. O direito à informação deve ser superior a qualquer outra garantia fundamental, inclusive, à da preservação da imagem. Sem esse direito, você abre caminho para ditaduras, repressões. No Brasil, o direito à informação não é superior ao direito que a pessoa tem de não se expor. Isso limita a profissão. É uma desgraça. Mas não podemos culpar apenas os juízes por isso, porque a Constituição é que foi mal feita. É um fenômeno nacional.<br /></p><p><strong>Comércio - Você acredita que o público tenha idéia do controle que os profissionais sofrem para evitar erros na notícia? Por que você não tolera o erro?<br />Júnior -</strong> O erro em uma empresa de comunicação pode arrebentar com uma vida. Se o sujeito erra em uma fábrica de sapatos, ele não prejudica ninguém, a não ser o seu bolso. Quando o jornal erra ou a rádio falha, alguém vai ser prejudicado ou exposto. Temos que ser implacáveis com o erro porque, mesmo tendo um compromisso quase obsessivo com a verdade, ainda somos incompreendidos. Imagine se formos lenientes com o erro? Não temos o direito de errar na informação que passamos ao leitor e ao ouvinte. Jornalista algum tem esse direito. Isso não pode fazer parte do nosso trabalho; se acontecer, temos que ter a decência de assumir que erramos.<br /></p><p><strong>Comércio - Após a experiência inicial com as revistas, é possível fazer algum tipo de avaliação desse produto?<br />Júnior -</strong> Do ponto de vista do negócio, ele vai bem. O núcleo de projetos especiais do jornal é maior que muitas redações por aí. São profissionais dedicados a publicações não diárias, com conteúdo voltado para as revistas. Quero ter capacidade de lançar mais títulos. Nos programamos para lançar 11 edições por ano e vamos cumprir. No entanto, para fazer mais, precisamos de mais gente ainda.<br /></p><p><strong>Comércio - Neste ano, o ‘Comércio’ conquistou o Prêmio Esso em uma categoria importante. O que significou essa premiação para o grupo?<br />Júnior -</strong> Foi uma das maiores alegrias da minha vida. Estamos a 400 quilômetros de São Paulo e a 16 km de Minas. Muita gente nos vê como segunda divisão, o que eu não aceito. O prêmio quer dizer que nós, aqui dos cafundós, conseguimos produzir o melhor material jornalístico do ano passado no País inteiro. O fato de o fotógrafo (Tiago Brandão) ter ido ao Rio de Janeiro e ver gente que é ícone de nossa profissão batendo palmas para ele em pleno Copacabana Palace é uma coisa incrível. Ser o único jornal do interior a ganhar um Esso em fotografia é mais incrível ainda. E não é apenas o Tiago. Nossa equipe de fotógrafos é excelente.<br /></p><p><strong>Comércio - Falta o que agora?<br />Júnior - </strong>O prêmio não é algo que você diz; “vou ganhar”. Você tem que lutar, trabalhar duro. Mas vamos procurar mais premiações. Esse reconhecimento é muito importante para a empresa, para a equipe e para os profissionais.<br /></p><p><strong>Comércio - O jornal mantém alguns projetos que fazem com que ele se aproxime da população. Há o Jornal Escola, as matérias sociais, que são importantes. Mas ainda existe um distanciamento sensível entre o veículo de comunicação e a comunidade. Há projetos ou iniciativas para diminuir essa distância?<br />Júnior -</strong> Temos essa preocupação. O que não tivemos foi perna para fazer. O auditório do jornal foi idealizado para isso. Temos tudo pronto, e esse é o nosso objetivo. É que fizemos tantas coisas, em um ritmo tão alucinante que não conseguimos nos preparar para tudo. Precisamos aproveitar o espaço que temos<br />para incentivar o debate, a reflexão.</p><p><strong>Comércio - Excluindo qualquer síndrome de inferioridade, que vez ou outra acomete alguns profissionais, o que se produz aqui é tão importante e reconhecido quanto o que se produz em outras praças, maiores?<br />Júnior -</strong> O que se produz aqui faz parte da primeira divisão do jornalismo brasileiro; não pense o contrário. Se hoje o Comércio é reconhecido em todo o País, é bom que se saiba que nem sempre foi assim. Foi um processo que se desenvolveu ao longo do tempo. Nesse ponto, o Governo Collor foi importante para os pequenos meios de comunicação, porque permitiu a expansão tecnológica, com importação de equipamentos e liberação de financiamentos bancários, o que favoreceu o crescimento de jornais menores, quando apenas as grandes corporações tinham o domínio do mercado. Foi um salto de qualidade importante. <br /></p><p><strong>Comércio - O aumento do consumo de informação entre os brasileiros, principalmente em mídia impressa, a despeito do avanço da internet, enfrenta uma barreira econômica ou cultural?<br />Júnior -</strong> Estamos muito longe de países como Alemanha e Japão, para ficarmos só nesses dois. É uma questão econômica, educacional, cultural, de hábito. Seria fundamental termos formado gerações de leitores. Mas estamos em um país em que os professores desdenham da imprensa. Há índices de leitura fantásticos no mundo, especialmente no Norte da Europa, EUA e Japão. No Brasil, o tempo que o camarada tem para ler ele prefere assistir televisão e jogar truco. Na Argentina, com uma população bem menor do que a nossa, os jornais Clarín e La Nación vendem mais que qualquer grande jornal brasileiro. É um problema que passa pelo incentivo à educação, pela formação de gente que leia. Qualquer coisa, mas que leia. </p>
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