A lei hoje só deixa trabalhar quem já tem 16 anos. Considero exagerada essa idade. Com 14 anos, depois de labutar na lavoura, lavar carros, eu já trabalhava com registro em carteira, e não era mero aprendiz. Era entregador de pão e ajudante de padeiro/confeiteiro.
Havia os fregueses fixos da padaria, espalhados por toda a cidade, aos quais era feita a entrega em casa. Às três da madrugada eu saía com a bicicleta de carga e uma cesta enorme de pães. Até as sete tinha de terminar. Era responsabilidade minha. A barra pesava quando chovia, ou fazia um frio cortante, ou furava um pneu da bicicleta, mas eu me virava. Terminada a entrega, ajudava a atender balcão. Depois passei a ajudante de padeiro e confeiteiro, até as onze.
Meio-dia eu já estava em casa e tinha a tarde livre para dormir um pouco e fazer outras coisas. Não perdi nada do que gostava de fazer, que era jogar bola, ouvir música, ler, ir ao cinema, pintar camisetas com acrilex... Estudava à noite e nunca sequer cogitei de parar. O melhor de tudo era o salário mínimo limpinho na mão no fim do mês.
Não digo isso para me gabar. Muitos que estão lendo este texto começaram assim. No meio em que eu vivia, os filhos ajudavam no serviço de casa e começavam cedo a laborar fora. Com onze, doze anos já se saía em busca de trabalho. “Office boy”, lavrador, lavador de carros, cobrador, entregador, balconista de loja, de armazém, ajudante em oficina mecânica, em bicicletaria e onde fosse preciso. Não dava para ficar dependente do dinheiro dos pais, que mal cobria as despesas básicas da família.
Trabalhar na infância e adolescência não atrapalha a formação e o desenvolvimento; pelo contrário, ajuda a dar noção de responsabilidade, a aprender o custo das coisas e a dar valor a elas; tem uma influência psicológica positiva. Faz um bem imenso à auto-estima trabalhar, ser e sentir-se útil, ter a grana para bancar as próprias roupas, os gastos pessoais, desonerar disso os pais. Quando calcei meu primeiro par de kichute, a satisfação não teria sido tão grande se não fosse por tê-lo comprado com o fruto do meu trabalho, com dinheiro que ganhei colhendo algodão.
Deixe-se trabalhar quem quer e precisa. Quem cedo sai a campo, vai em busca do seu sustento, arruma um trampo, acaba ampliando seus horizontes, chega à fase adulta mais experiente, responsável, com mais visão e capacidade para encarar os desafios. O adolescente que precisa trabalhar busca as oportunidades; se não as encontra nos meios legais, pode enveredar para o mundo do crime. Não tem sentido praticar crimes para sobreviver porque a lei proíbe de trabalhar. Certas leis criadas para proteger acabam prejudicando.
É óbvio que se deve combater a exploração da mão-de-obra infantil, que não se deve deixar a cargo de menores o trabalho de adultos, etc., etc. Mas, com bom senso, dá para conciliar trabalho, estudo e lazer. No país cujo presidente nunca foi muito chegado à escola e ao batente, cujos deputados e senadores trabalham somente três dias por semana e menos de dez meses no ano, há a cultura do ócio.
É preciso criar a cultura do trabalho e do estudo. Onde há tanto feriado e pais de família, ao invés de trabalhar e se empenhar em obter melhor ganho, preferem ficar à toa e viver com minguada ajuda do Governo Federal? Onde há tantos entraves ao trabalho formal? Onde é tão burocrática a abertura de empresas, tão onerosa a contratação de empregados, o ensino público básico é tão ruim? Não é hora de repensar tudo isso?
Paulo Pereira da Costa
Promotor de Justiça e autor do livro “Pensando na Vida” – paulopereiracosta@uol.com.br
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