Nascidos para pelegos


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Num frutífero diálogo com um velho amigo, pareceu-me ideal e oportuna a discussão de alguns fatos envolvendo política e comportamento humano que inevitavelmente eclodirão em muitas corrutelas espalhadas por todo País. Com mais de cinco décadas de idade a mais do que eu, encorajou-me a também participar do dissecamento reflexivo da questão sobre o comportamento decadente de determinados homens no período eleitoral. O nobre mestre revelou a existência de uma espécie de gente derivada da raça humana que nasceu “predestinada” ao que podemos chamar de “peleguismo”. Este, o peleguismo, não é nenhuma corrente filosófica e é facilmente detectado ao se observar atuações políticas cujo comportamento fatalmente esboça subserviência e fraqueza diante de grandes decisões e tomadas de posicionamentos - muitas vezes justificadas - aos seus correligionários, como sendo a “arte” em compor ou articular costurando politicamente acordões. Assumi perante ele que meu conceito sobre a matéria era superficial. Apenas vislumbrava sobre o que era “pelego”, mas não tinha a definição correta dessa figura de linguagem. Pedi que definisse e então, discorreu: “é uma manta ou pele de carneiro colocada entre o lombo do cavalo e a sela do cavaleiro cuja finalidade é dar maior conforto àquele que cavalga. Transferido o conceito para o mundo dos homens, o ser humano que se presta em ser ‘pelego’ torna-se capacho-servil de outro ser humano, que o reduz a condições humilhantes”. Paralelamente às explicações, fiz um parêntese, compartilhando sobre um documentário que assisti acerca do comportamento dos macacos na República do Congo. Coincidência ou não, os macacos tendiam a se sucumbir ao macaco-líder chegando a ponto de se deixarem ser montados por este perante todo grupo, como num espetáculo em que os demais batiam no peito, pulavam, guinchavam e davam piruetas de contentamento... O professor após ouvir atentamente, vaticinou: “Aqueles macacos que assistiam a humilhação protagonizada pelo líder a um membro da comunidade não tinham a capacidade racional para descobrirem que também estavam debaixo da mesma dominação; não conseguiram se ver naquele outro macaco humilhado. Isto é possível acontecer com os animais racionais que somos nós em determinadas ocasiões da vida. Mas voltando ao peleguismo, nessas corrutelas do nosso Brasil existe muita gente que sofre por culpa de ações de dominadores que sempre terão alguém disposto a ser pelego, com pré-disposição voluntária em se deixar ser usado, abusado contaminando também outros membros de sua comunidade”. Mas havia uma curiosidade que já estava me causando inquietação, e perguntei ao professor quais seriam as vantagens dessa espécie de confraria de pelegos, já que me pareceu que isto sempre existiu e inevitavelmente não acabará tão cedo. Ele respondeu: “sempre haverá pelegos, pois eles foram criados e destinados para isto, servir a quem nasceu para montar (dominar), a servidão é a recompensa deles, sentem prazer nisto, está na sua natureza”. Ricardo Veríssimo Júnior Funcionário público e conselheiro do Comércio da Franca

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