Na euforia geral que causa a véspera de uma grande feira nacional com repercussão internacional, podem passar despercebidos os sinais dos tempos que anunciam mudanças de comportamento, tanto dos hábitos dos compradores ou de exibidores como de visitantes e do comércio em geral.
É sintomático observar o comportamento de outras feiras internacionais, outrora sinônimos de lançamentos e de “frisson” nos mercados. O fracasso da última Micam, já reduzida de três pavilhões para um só, a mudança do peso de gravidade da ISPO de Munique para a China embora nominalmente e simbolicamente ainda na Alemanha, a Feira de Pusan na Coréia do Sul, que inteira, hoje, caberia dentro de um estande grande da Francal, o quase desaparecimento da francesa Midec, devem ser analisados com frieza e objetividade.
Como um todo, as feiras perderam, na maioria, a finalidade comercial. Hoje estão funcionando muito mais como eventos de relacionamento, de fixação de marcas e, de vez em quando, como feiras de lançamento de alguma novidade revolucionária quando existem. A quem culpar por esta situação?
Há uma série de explicações, desde o giro muito mais rápido de tendências de moda, de gostos globalizados divulgados na velocidade da luz, que não permitem grande antecipação de compras e de longa espera pela entrega de pedidos, até a crescente influência da comunicação via Internet. Para que gastar tempo e dinheiro, me sujeitar ao incômodo e à amolação de seguranças nos aeroportos congestionados? As viagens de negócios acopladas ao turismo, de há muito tempo perderam o seu “glamour”, nos aviões cheios e apertados.
Com toda comodidade e tranqüilidade, em casa, navegando pela Internet, tenho à minha disposição tudo o que o mundo pode oferecer em matéria de moda e de novidades. O único esforço é dar um click e, sem sair da minha cadeira confortável, ver a mesma coisa que visitantes que voaram horas e se apertaram em corredores congestionados de feiras.
Estamos no terceiro milênio e cercados de mudanças de hábitos, de comportamento e de costumes. Se a visita à feira é o sinônimo de visita aos amigos e trocar tapinhas nas costas nada a objetar. Se a visita é pretexto para escapar à vigilância doméstica e voltar aos tempos de juventude com algumas noitadas saindo do sério, é problema de cada um. O cálculo de custo/benefício ou seja, despesa e cansaço/resultado dificilmente será positivo.
A redução de pedidos efetivamente fechados no recinto das feiras está sendo notada a cada evento. Há vinte anos uma feira garantia a produção de semestre. Hoje, dificilmente garante produção para uma quinzena e, novamente, as razões são múltiplas e não é fácil identificar a mais importante. Giro muito rápido da moda, medo de arriscar em compras de novidades, descapitalização do comércio varejista, prazos de entrega oferecidos pelas fábricas excessivos, reposição demorada dos artigos vendidos e assim por diante. Qual é a razão principal dos pedidos minguando? Quem pode dizer?
Os promotores de feiras sempre tentam impressionar com número de visitantes como se este fosse igual ao número de compradores. Mesma coisa acontece com número de importadores. Donde vieram? De Suriname? Da Bolívia? De Zimbábue?
Como em tudo na vida e, principalmente na vida empresarial, o que conta são os resultados. Números frios. Custo/benefício. E o cálculo é muito simples: dividir o gasto total (incluir as mordomias, passagens de cortesia, vida noturna) pelo número de pares vendidos. E veremos quanto nos custa uma feira por par ou, melhor ainda, em quanto encarecemos o nosso produto devido à exibição em evento do tipo. Tão simples é a verificação. Tão simples como a justificativa da participação ou não numa feira, seja Couromoda, Francal ou GDS em Düsseldorf (mais uma com tendência minguante).
Não tenho nada contra feiras. No presente estágio ainda têm utilidade. A única questão é saber se os expositores estão em condições de bancar a própria vaidade ou estão sangrando o capital de giro, tão escasso e difícil de criar e conservar.
`COURO CRU`: COUTINHO, ANTÔNIO
O jornalista Antonio Coutinho, que também é ficionista e por mais de uma década atuou como assessor de imprensa no Sindicato da Indústria Calçadista de Franca, lança no próximo dia 27, sexta-feira, no Salão de Convenções da CTBC, o livro Couro Cru, que chega antecedido de muitos comentários favoráveis. E até já vai se firmando como referência entre as pesquisas dedicadas ao resgate das origens do pólo calçadista francano, conforme registros do historiador Chiachiri Filho e da crítica Vanessa Maranha, que resenhou o traba-lho para o caderno Nossas Letras. Nada de estranhar, para quem co-nhece a inteligência, a cultura, a habilidade com as palavras e o perfeccionismo do autor.
PREPARANDO O MERCADO
“Os aumentos nos custos do calçado chinês não devem abalar em praticamente nada as exportações daquele país, ao contrário do que muitos calçadistas brasileiros vêm apostando”. Esta afirmação feita por Ivânio Batista, consultor da Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados), durante entrevista concedida ao Comércio, prepara os ânimos dos calçadistas brasileiros para o que virá: o aumento nos custos provocado pela implantação das normas trabalhistas da OMC já era esperado pelo tigre asiático que vem agregando valor aos seus produtos. Mais uma lição que os milenares orientais transmitem: preparar o mercado para o melhor e o pior momento.
MANDATO DE CONCILIAÇÃO
A intenção é clara: captar novos associados entre os pequenos industriais de Franca para ampliar o peso do SindiFranca (Sindicato da Indústria de Calçados de Franca), na busca por soluções para a situação atual por que passa o pólo calçadista de Franca. José Carlos Brigagão do Couto, que assumirá o comando da entidade no próximo dia 16, define como “liberal” seu perfil de atuação e espera conseguir, com esta forma de administrar, conciliar os industriais francanos em torno de interesses comuns: amenizar a crise calçadista e preparar o pólo de Franca para o perfil de mercado que o futuro sinaliza.
Zdenek Pracuch
Sapateiro, shoemaker – pracuch@comerciodafranca.com.br
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