Na virada de 11 para 12 de junho um foguetório abalou a quietude que deveria reinar na alta noite. Buzinas de veículos em carreata e gritos completavam o quadro de movimento e barulho. Vá lá que fosse uma comemoração pela aprovação de uma emenda constitucional que, banindo a carga tributária extorsiva, instituísse o imposto único; vá lá que fosse porque o Brasil conseguiu acabar com a fome e a indigência, ou porque se descobriu uma vacina para a corrupção, ou pelo fim da queimada da cana, vá lá...
Mas não era nada disso. O motivo de tamanha folia e perturbação foi a derrota do Corinthians para o Sport na final da Copa do Brasil. Vá lá, então, que os barulhentos fossem nordestinos comemorando a conquista do título pelo time pernambucano. Não eram. Eram torcedores de outros times paulistas, os anti-Corínthians, refestelando-se com a derrota do timão e provocando os corintianos.
Dada a paixão pelo futebol, pode parecer que tudo isso é normal. Para mim, não é. Vejo que a coisa vai muito além da mera troça inofensiva, revela a verdadeira face de muita gente. Há um gostinho especial, uma satisfação íntima com os infortúnios, os tombos dos outros. Incapazes de encontrar a felicidade em si mesmos, certos indivíduos tentam encontrá-la na infelicidade alheia. Fazem festa não pelas conquistas decorrentes do próprio esforço, ficam felizes não por vencer desafios, por colher frutos do próprio semeio e cultivo, mas pela tristeza dos outros.
Torcedor que estoca rojões, torce como um louco contra o time rival e, se a torcida dá certo, explode de satisfação, está perdido, não sabe o verdadeiro sentido do esporte, da vida. O ser humano, na sua sanha de desvirtuar, vem degradando tudo que toca. Vejam o estado, a política. Vejam a educação, a saúde pública. Vejam as guerras por religião.
Ver verde o pasto do vizinho deixa incomodado; que tenha boa ventura quem está longe, não quem está do lado. Assim tem de ser: ter prazer em cima da dor alheia, fazer barulho enquanto o outro, de parede-meia, sofre calado. O certo não é quem curte as coisas na sua essência, o esperto é quem quer tudo desfigurado. No cúmulo da deturpação, ‘desejar-lhe proteção’ vira ‘desejar-lhe tropeção’.
Se sobra tempo para coisas desse tipo, é bom repensar o modo de preencher a vida. Futebol é só um esporte, distração, entretenimento. Não deve ocupar nem tanto tempo nem tanto pensamento. É para curtir despreocupadamente, numa pausa dos afazeres profissionais e pessoais, em momentos de lazer. Lazer é para espairecer, descontrair, descansar, dar novo vigor físico e mental; não é para acumular tensão, nervosismo, preocupação, ódio.
Oxalá os apaixonados pelo futebol um dia caiam em si e passem a enxergar que, no esporte como na vida, é um dia após o outro. Ora se ganha, ora se perde. Nenhum time será sempre o melhor. Há uma alternância nas conquistas. Assim, quem hoje sente grande satisfação com a derrota do time dos outros, e usa isso para atormentá-los, amanhã estará do lado contrário recebendo o troco, num círculo vicioso de tormentas mútuas, enquanto a vida se esvai sem ser verdadeiramente aproveitada. Oxalá um dia se entenda que soltar rojões altas horas da noite fere de morte a civilidade.
Oxalá um dia haja a consciência de que, terminado o jogo, finda a partida, seja qual for o resultado, é preciso voltar à realidade, cuidar da vida. Da própria vida. A propósito, não sou torcedor do Corinthians.
Paulo Pereira da Costa
Promotor de Justiça e autor do livro ‘Pensando na Vida’ - E-mail: paulopereiracosta@uol.com.br
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