A artista plástica Benícia Maria Fernandes quebrou o silêncio. Dois dias após prestar um contundente depoimento de acusação contra o pai e a madrasta da menina Isabella, 5, morta no dia 29 de março, a testemunha-chave do caso que abalou o País aceitou falar. Amiga próxima da família, disse ter ficado surpresa com o suposto envolvimento de Alexandre Nardoni, 29, na morte da filha. A mesma surpresa não é observada no que se refere à participação de Anna Carolina Jatobá, 24, a quem conhecia por “Carol” e classificou de “maluca”.
Na tarde de ontem, Benícia - que mora em Franca - recebeu a reportagem no escritório do advogado Luiz Gilberto Lago Júnior, no Centro, e falou sobre a convivência próxima que mantinha com os avós paternos de Isabella. Natural de São Tomás de Aquino (MG), Benícia se mudou ainda criança para São Paulo. No período de 2001 a 2006, morou em uma casa em frente ao sobrado de Antônio e Aparecida Nardoni, pais de Alexandre, no Bairro do Tucuruvi. Dava aulas de pinturas para a mãe e a irmã do acusado, Cristiane. “Eu era amiga da Cida e freqüentava a casa dela. Participava de festas lá. Criamos um vínculo muito grande de amizade”.
Até hoje guarda como recordação o convite do aniversário de um ano com a foto de Isabella. Justamente nessas confraternizações Benícia diz que notou o comportamento violento da madrasta, motivado por ciúmes de Alexandre. “A Isabella sentava na perna do pai e passava as mãozinhas no pescoço dele. Ficava quietinha, pois adorava ele. A Carol vinha, tirava a menina e se sentava no colo do Alexandre. Sempre me preocupei com isto”.
Benícia também relembrou o dia em que presenciou de sua garagem um ataque de fúria de Anna Jatobá. “Ela desceu as escadarias brava, passou a mão numa ferramenta e tacou nele com toda a força. A chave bateu na parede e voou lá para fora. O Alexandre levou a Carol para cima. Ela subiu e deu um show. Gritou por uns dez minutos. A vizinhança toda saiu para ver”, disse.
Preocupada com a falta de controle emocional da madrasta, procurou a avó da menina e fez um alerta que, hoje, soa como premonição. “Falei ‘Cida, você é louca de deixar sua neta ir lá no apartamento porque qualquer hora essa maluca joga ela lá de cima’. Não foi uma previsão. Falei isto para defender a criança”.
Há dois anos, com a morte do marido, Benícia resolveu deixar São Paulo e se mudou para Franca, onde o casal de filhos mora há cerca de dez anos. Fixou residência no Jardim Francano. Só ficou sabendo da morte de Isabella pela televisão três dias depois do ocorrido. Afirma ter levado um choque ao saber que a tragédia aconteceu da maneira que um dia chegou a imaginar. “Eu chorei muito, muito mesmo. Quando eu soube, ela já tinha sido enterrada. Imagine acontecer uma coisa desta com uma criança na idade de 5 anos. É muito triste”, disse.
Convencida pelo filho de que não conseguiria dormir sossegada caso não falasse o que sabia, resolveu procurar um advogado de confiança e contar detalhes vistos ao longo dos anos em que conviveu próxima à família Nardoni. No dia 22 de abril, foi ouvida por três promotores no Fórum de Franca. Devido à riqueza de detalhes do depoimento, foi intimada a depor na fase processual.
Na terça-feira, esteve em São Paulo e reafirmou as acusações ao juiz Maurício Fossen, da 2ª Vara do Júri do Fórum de Santana.
Antes da audiência, encontrou-se com o pai de Alexandre, mas não chegaram a conversar. “Eu tive um contato com o ‘Toninho’. O cumprimentei e ele me respondeu”. Pouco depois, foi colocada frente a frente com o casal. “Eu ignorei eles. Nem quis que ficassem na sala de audiência. Mandei retirá-los. Falei: ‘não vou dar satisfações para eles. Não quero eles perto escutando’. Vão ter que saber dos advogados o que eu falei”.
Benícia se esquivou ao ser questionada se acredita na culpa do casal. “Quero que a justiça seja feita. Não tenho opinião a respeito. Aliás, até tenho, mas não quero dar”. Indagada sobre o que imagina ter acontecido naquela noite, respondeu, nas entrelinhas, a questão anterior. “Não faço a mínima idéia, porque nunca imaginei que o Alexandre pudesse participar de uma coisa dessa. De repente, parece que, pelo o que tenho ouvido, aconteceu”.
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