O menino engraxate


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Não se consegue entender como que indivíduos (adultos) que outrora também foram “meninos” dispensarem tratamento tão rude e impróprio quando perguntados: “vamos engraxar, senhor?!”. A primeira vez que vi o menino-engraxate ele tinha uns dez para onze anos, sequer conseguia manter a sua caixa de madeira com as ferramentas de trabalho nos ombros por muito tempo. Estava visível seu cansaço, desalento e frustração, principalmente quando oferecia sua força de trabalho e era tratado como um estorvo ou incômodo que se aproxima e interrompe o hábito dos “adultos” em tomarem seu cafezinho “fresco” com os amigos contadores de bravatas. O relógio marcava quase meio-dia de um sábado movimentado onde as pessoas andavam apressadas influenciadas pelo espírito compulsivo-consumista fazendo do centro da cidade o palco perfeito para rápidas transações. Havia alguém ali que também estava no seu direito, mas não era visto nem notado, parecia invisível dentre os demais mortais. Vestia camisa de manga-curta de cor vermelha; a calça jeans era surrada e segura por um cinto preto que combinava com o sapato de amarrar. Seu visual era simples, estava limpo, penteado e seu andar pelo calçadão era ereto; apesar de ter pequena estatura e ser franzino - tinha estilo; carregava a pesada caixa de engraxate com dificuldade, porém, parecia-me que em seus ombros além da sensação de responsabilidade também estavam os nobres sentimentos de dignidade que o trabalho causa sobre o homem. Ali, ainda, menino... Quando seus olhos passaram por mim a procura de cliente, fiz sinal. Aproximando-se de mim, fez a pergunta: “vamos engraxar, senhor?!” Respondi prontamente que sim! Conversando com o menino descobri que era o irmão mais velho de três, e que fui seu segundo cliente do dia; dizia que havia sonhado com o sábado durante toda semana, pois imaginara que pelo grande movimento que o comércio teria o seu ganho fosse também razoável, pois seria aniversário de sua mãe no domingo e pretendia com sua féria fazer-lhe uma surpresinha com um vasinho de orquídeas e um cartão apropriado para a data; com restante do dinheiro compraria um franguinho, e assim estaria tudo pronto para a comemoração. Há muito tempo não sentia aquela espécie de “nó” na garganta que antecede o lacrimejar dos olhos quando ouvimos coisas que nos emocionam. Fiquei firme, mas não por muito tempo. Terminado o trabalho em minhas botas, ele retirou cuidadosamente do bolso da camisa um envelope pequeno contendo um pequeno cartão para que eu o lesse. A frase era amável e foi inevitável não conter a emoção... Algum tempo depois reencontrei o menino-engraxate. Perguntado sobre sua mãe, respondeu com um sorriso sereno: “Mamãe está bem, mas nos deixou por um momento”. Então pude recordar a frase que ele havia escrito no cartão: “Mamãe, te amarei para sempre mesmo que algo me separe de você”. Ela estava doente. O menino-engraxate está morando com os tios maternos no Triângulo Mineiro. Foi-se o menino, deixando saudade de uma amizade. Confesso que às vezes ainda ouço a sua voz fina me dizendo: “vamos engraxar, senhor?!”. Ricardo Veríssimo Júnior Funcionário público, ex-conselheiro da Saúde, conselheiro do Comércio

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