Desafio em outra terra


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Nipo-brasileiro - De Osaka, segunda maior cidade japonesa, Huzio Hashimoto veio colher café no Brasil na década de 30. Cultura japonesa não foi esquecida mesmo depois de sete décadas
Nipo-brasileiro - De Osaka, segunda maior cidade japonesa, Huzio Hashimoto veio colher café no Brasil na década de 30. Cultura japonesa não foi esquecida mesmo depois de sete décadas
Quando o navio Kasatu Maru atracou no porto de Santos, em 18 de junho de 1908, o chefe da inspetoria de imigrantes do Estado, Amândio Sobral, ficou espantado com a organização, limpeza e educação das 165 famílias que chegaram ao Brasil após mais de 50 dias de viagem. O impacto foi tanto que Sobral publicou um artigo no Correio Paulistano, importante jornal da época, em que dizia que a limpeza das famílias nipônicas que lá desembarcaram era “inexcedível”. Em Santos, não foram poucas as pessoas a dizer que a terceira classe do navio japonês apresentava mais asseio que a primeira de alguns transatlânticos europeus. Nenhuma discussão, nenhuma ponta de cigarro jogada no chão. As famílias do Kasatu Maru foram as pioneiras da imigração japonesa, cujo número final e total é desconhecido. Apenas entre 1914 e 1938, estima-se que 160 mil japoneses tenham imigrado para o Brasil. A segunda leva, nos anos seguintes ao final da Segunda Guerra Mundial, trouxe mais indivíduos. Nas duas ocasiões, no entanto, a razão era quase sempre a mesma: fugir de um país pobre, no primeiro caso, ou devastado pelo conflito, no segundo, e encontrar do outro lado do mundo condições melhores de vida. Estabelecidos sobretudo na agricultura, concentraram-se nos estados de São Paulo e Paraná, nas lavouras de café e algodão. No nordeste paulista, cidades como Guará, Guaíra e Ituverava são exemplos da fixação de numerosas colônias de japoneses em fazendas. Por razões não explicadas historicamente, a imigração japonesa em Franca não foi significativa. Não é possível conhecer quantas famílias se estabeleceram no município. Na Associação Nipo-Brasileira local estão filiadas 35 famílias, a maioria delas já de nisseis nascidos no Brasil. O próprio presidente da entidade, Sérgio Nakamura, não soube dizer quantos japoneses ou descendentes moram no município. Sobrenomes como Kadooka e Fuhugawa, conhecidos, respectivamente, pela Loja Japonesa, que há 30 anos vende roupas infantis, e os famosos pastéis vendidos na feira livre, são exemplos de orientais na cidade que serão retratados em detalhes na edição do Comércio de amanhã. [FOTO2] BRASILEIRO-JAPONÊS O idioma de Kenjiro Mine já perdeu muito de sua originalidade, a ponto de em uma conversa por telefone ser repreendido pela tia, que mora no Japão. Ao lado do pai, Torashi, da mãe, Michiko, dos irmãos Tada-shi e Yoshiaki e mais dois parentes, Mine chegou ao Brasil em 8 de janeiro de 1957, depois de 53 dias de viagem a partir da província de Saga-Ken, com 7 anos de idade. Um dia, afirmou ele, o pai chegou e disse que partiriam para o Brasil, sem que ninguém soubesse onde ficava o tal país. Para explicar didaticamente aos filhos, disse apenas que era um lugar onde era noite quando, para eles, era dia. Ao deixar o Japão, dez anos após a rendição do país-Natal para os americanos, no final da Segunda Guerra, Kenjiro disse que a família chegou em uma situação muito diferente da dos imigrantes que vieram antes. “Descemos no Porto de Santos onde a família Maeda já nos esperava”, disse ele, referindo-se a Tadayuki Maeda, considerado o maior produtor de algodão do mundo, que morreu sábado passado. “De lá, por trem, chegamos a Ituverava para trabalhar nas plantações de algodão, com casa e estrutura”. Em épocas diferentes, foram morrendo pai, mãe e irmãos. Da família, apenas Kenjiro está vivo para, como disse, poder contar a história dos Mine. Ao assegurar que os pais morreram com sentimento de gratidão pelo país que os abraçou, Kenjiro Mine, engenheiro eletricista de formação, mas atualmente agricultor e secretário de Agricultura de Ituverava, pai de dois filhos e casado com Mirian, disse que nunca foi meta de Torashi, o pai, voltar para o Japão. “Em nenhum momento se arrependeram da mudança. Ele dizia que nunca iria voltar. Sonhava ter um pedaço de chão aqui para mexer e criar raízes no Brasil. Conseguiu, de certa forma, tudo o que se propôs a fazer”. Aos 59 anos, Kenjiro acredita que apesar das diferenças culturais nítidas entre Brasil e Japão, alguns princípios são os mesmos, universais. Perguntado se se considera mais de um país que de outro, respondeu: “O cerne é japonês. Naturalmente, mais de 50 anos no Brasil fazem com que você adquira alguns costumes. Mas no fundo, alguns fundamentos japoneses ainda são fortes. Sou japonês e brasileiro. Sou feliz aqui”.

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