A aflição pré-Francal


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Tenho acompanhado as feiras de calçados desde que foram introduzidas no Brasil. Estive na primeira Francal, em Franca, com patrocínio da Prefeitura do tempo do prefeito Lancha Filho, no prédio ainda em construção do paço municipal. Depois, a segunda, no campo do Palmeiras, debaixo de lonas num dia de chuva. Os organizadores colocaram tábuas para evitar que os visitantes pisassem no gramado molhado, mas mesmo assim encharcávamos os calçados de água. Esta feira marcou a primeira visita do legendário Mr. Saul Katz, que tanto fez pela exportação de Franca, a despeito dos pés molhados na primeira visita a Franca. A primeira feira de calçado na capital do Estado foi organizada pelo saudoso Caio de Alcântara Machado. Algo como uma semana do couro e calçado, no pavilhão da Bienal. Nesta, exibimos no estande da Samello, junto com produtos da empresa, um Ford 1912 de propriedade do senhor Guilherme Presotto, em homenagem ao “calhambeque bip-bip” do Roberto Carlos”, um dos grandes hits musicais da década. De lá para cá as feiras cresceram, se sofisticaram e com o andar dos tempos perderam sua característica de comercialização e se tornaram muito mais eventos de relações públicas, de fixação e de promoção de marcas próprias. Uma coisa não mudou: a aflição de última hora para terminar a coleção e levar as amostras em tempo para chegarem antes do primeiro visitante. É compreensível. Até os pombos das praças centrais de Franca sabem que os contratos e reservas dos estandes são assinados um ano antes da próxima feira, mas os donos de empresas se fingem surpreendidos, como se os promotores, por maldade, anunciassem a data em cima da hora. Os sapateiros, coitados, são obrigados a emendar dia com noite, trabalhar aos sábados e domingos para entregar as amostras antes das autoridades abrirem oficialmente os eventos. O triste, neste episódio, é que a comercialização mudou. As feiras mudaram, mas os donos de empresas teimam em não tomar conhecimento destas mudanças. As próprias vendas através de representantes, cada um carregando oito ou dez marcas de fábricas diferentes para oferecer, estão com os dias contados. Não digo para territórios afastados como Roraima, Acre até estados distantes como Pará ou Amazonas, onde não é possível manter um vendedor próprio. O tamanho do mercado não justifica, mas e o resto do continente chamado Brasil? Os donos das empresas ainda vão descobrir o valor da pesquisa de mercado e não criar coleções de cem ou 200 pares para pesquisarem aceitação em uma feira, ficando depois com cinco ou dez modelos que “pegaram”, encostando o resto. Não seria muito mais prático lançar um ou dois modelos por mês, dar motivação ao vendedor de ter o que mostrar nas visitas que faz e manter a venda em movimento, sobre a nova modelagem? “E as feiras?”, poderiam devolver. Nas feiras, quem vai ver modelo e já comprou fica contente porque já está vendendo o que os demais concorrentes só agora estão comprando. E os clientes, ou importadores, que não são visitados, pouco se importam se o modelo foi lançado há dois ou quatro meses atrás, desde que agrade. E tem ainda o reforço dos atendentes, que podem afirmar com absoluta certeza, que este modelo vende bem! Há outra pergunta, que também nunca falha: “Alguém já fez isso (eis aí turma que só apreendeu a copiar)?” Não posso responder para não trair segredos profissionais das firmas para as quais presto assistência e, que já trabalham com mentalidade de terceiro milênio. Tudo se resume em planejamento. Quem me acompanha, sabe que estou batendo nesta tecla há dezenas de anos. Por que não podemos planejar a divisão do tempo para pesquisa do mercado, para pesquisa de novos materiais e de novas tecnologias, para planejar o tempo para desenvolvimento e para a execução? Planejamento não é digitação de fichas para produção. Isso se chama programação embora todo mundo teime em chamar de planejamento... É realmente divertido observar os donos de empresas quando planejam viagens, principalmente ao exterior. Horários, hotéis, chegadas e partidas são planejadas com precisão de minutos. Mas quando se trata do planejamento das empresas, planejamento vital para produtividade, lucratividade e sobrevivência, tudo é empurrado com a barriga. Curioso é que, quando se viaja, todo o planejamento depende de terceiros, fora do nosso controle e o dono permite. Não pode fazer o mesmo em sua empresa. Quem determina o plano tem que ser ele. Quem executa e quem colhe o resultado, deve ser ele. Há explicação para quem não o faz? ISPO A ISPO em Munique este ano foi ainda mais influenciada pela visão ecológica na apresentação dos modelos. As botas Patagônia e a austríaca Rossignol até reduziram o número de tonalidades nas cores para evitar excessivo tingimento nos cortumes e com isso maior gasto de energia tanto nos fulões como nas máquinas de pintura. A cortiça, fibras de bambu, garrafas pet recicladas para zipers e ilhós, látex natural e algodão organicamente cultivado foram alguns itens que despertaram curiosidade e cuja aplicação é solicitada cada vez mais pelos europeus. PROBLEMAS FÍSICOS! Cada vez mais produtores de calçados estão preocupados em oferecer calçado que evita cargas eletrostáticas no corpo. Pouca gente sabe que andar extensivamente sobre um piso de carpetes, pode criar cargas eletrostáticas de magnitude de 1,5 até 35 mil volts e que se fazem sentir a partir de 3 mil volts. Os efeitos ao longo prazo de submissão à alta voltagem estão sendo estudados agora, mas já se sabe que cansaço excessivo, irritabilidade, dores de cabeça e choques quando se toca uma maçaneta, são sinais que podem acusar a presença e o acúmulo de eletricidade estática. Zdenek Pracuch Sapateiro, shoemaker – pracuch@comerciodafranca.com.br

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