Amar demais a ovelha negra da família, um ex-namorado cachorro e até um hamster magro e feio de estimação é uma atitude relativamente normal. Mas o que dizer quando é o carro o grande amor da sua vida? Os apaixonados garantem que só querem automóveis únicos e autênticos.
Justamente por esse motivo que o bancário Sérgio Irrácio Pinto, 22, compra infinitas brigas com a namorada, família e amigos do trabalho. Afinal, quando o assunto é seu carro turbinado, ele faz questão de deixar claro o que pensa. “Muita gente me chama de doido, mas o dinheiro é meu, logo, faço o que quiser com ele”.
Depois de ter gastado cerca de R$ 22 mil com um Astra prata e uma Saveiro, ele tem hoje um Astra branco que, segundo ele, está avaliado em mais ou menos R$ 50 mil. “Comprei há um ano e dois meses por R$ 18 mil e levei para tunar (modificar)”, disse. O xodó de Irrácio tem uma televisão de 32 polegadas com tela de LCD, Playstation, DVD, portas estilo Lamborghini (aquelas que abrem para cima), suspensão a ar, bancos mais largos e baixos como os de carros de corrida e rodas aro 17 (os convencionais são 14). “Não é porque é meu, mas é muito ajeitado”.
Irrácio, assim como a maioria dos “automaníacos”, não sabe explicar de onde surgiu essa paixão avassaladora pelas quatro rodas, mas confessa que desde pequeno é maluco por carros. “Eu tinha uns 7 anos quando comecei a gostar. Até hoje meu quarto é cheio de pôsteres e miniaturas. Tenho umas 700”, disse.
Mas sustentar esta fissura não é mole. Além da grana investida, quem se aventura reclama do tempo que os carros passam longe de casa. “Esse último ficou na oficina dez meses e sempre que quero mudar alguma coisa tenho que esperar mais ainda. Meu pai até brinca que eu comprei o carro para ficar na garagem dos outros”.
Mesmo com saudade, deixar o carro na oficina, para eles, é quase uma necessidade. Isso porque depois de investir às vezes mais que o dobro do valor pago pelo automóvel eles ainda não estão satisfeitos. “Não paro nunca, sempre invento mais uma coisinha para mudar nele. Agora, estou trocando o Playstation 2 para o 3, pintando e ainda quero trocar as rodas para aro 20”.
“É MEU E NINGUÉM TASCA!”
Mas para que tanto investimento em equipamentos e tecnologias dispensáveis? Para fazer inveja a outros rapazes ou transformar tudo em grana daqui a alguns anos? Nada disso. Vender nem pensar. “Já tentei e me arrependi, tanto que peguei o carro de volta.
Chorei, filmei ele indo embora. Agora não vendo por nada. Tenho medo do comprador não cuidar dele tão bem quanto eu”, disse Irrácio. Com medo de ser roubado ou ter seu carro amassado e arranhado, ele evita sair de casa com o Astra e assume o seu egoísmo. “Esse é só para os finais de semana, mesmo assim só eu o dirijo, ninguém mais põe a mão”.
Menos “grilado”, o empresário Eduardo Florêncio, 33, anda para cima e para baixo com seu carro turbinado e confessa que se fosse para começar tudo de novo, venderia sim seu automóvel.
Equipado com um motor de 300 cavalos, o charme da sua Saveiro está debaixo do capô. Ela deve valer hoje uns R$ 40 mil, R$ 16 mil investidos com peças forjadas, motor de performance, suspensão rebaixada e outros detalhes. “Se oferecessem um pouco a mais do que ele vale eu venderia para começar tudo de novo. É uma diversão, um buraco sem fundo”.
Eduardo, que durante a entrevista confessou aos risos já ser um pouco “velho” para a brincadeira, lembra que tudo começou quando tinha 14 anos. “Eu juntava dinheiro para incrementar o Fusca que era do meu pai. Com o passar do tempo ele acabou ficando para mim. Além do Fusca e da Saveiro, já tive uma Parati, um Kadett e um Gol, todos equipados. “Não sei explicar de onde vem essa paixão.
Às vezes bate um arrependimento porque poderia estar andando de Audi. Mas ligo o motor, piso no acelerador, escuto o barulho, aí acabou. O arrependimento passa na hora”, disse Eduardo. Vai entender...
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