‘É preciso planejar’


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AGORA NO COMANDO - O empresário José Carlos Brigagão venceu na semana passada as eleições para comandar o Sindicato da Indústria de Calçados de Franca. Ele quer mudanças e mais planejamento nas a&cce
AGORA NO COMANDO - O empresário José Carlos Brigagão venceu na semana passada as eleições para comandar o Sindicato da Indústria de Calçados de Franca. Ele quer mudanças e mais planejamento nas a&cce
<p>José Carlos Brigagão Couto, 62, um dos acionistas da Sândalo, será, a partir do dia 16 de julho, o novo presidente do Sindifranca (Sindicato da Indústria de calçados de Franca). Pela segunda vez no cargo (a primeira foi em 1984), Brigagão diz que sua meta é estabelecer um planejamento estratégico de curto, médio e longo prazos para o setor. Para isso, diz, é necessário um raio x dos associados, questionando seus anseios e necessidades, além de uma maior união do setor, não só em Franca, mas em todo o País. </p><p><br />Em entrevista na última quinta-feira, o futuro presidente do Sindifranca também comentou a derrocada das grandes empresas francanas. Para ele, o problema é a falta de atenção à sucessão familiar. Para isso, diz que a cidade precisaria de uma escola para qualificar estes profissionais. Ainda na preparação dos sucessores, ele acredita que, como ocorreu com sua trajetória pessoal, o administrador deve ter experiência no “chão de fábrica”. Isso poderia ocorrer inclusive com um intercâmbio entre os filhos dos industriais, cada um indo trabalhar na empresa do outro. Confira abaixo os principais trechos da entrevista, feita na sede do Sindifranca.</p><p> </p><p><strong>Comércio da Franca -Quais são os planos para a sua gestão?<br />José Carlos Brigagão Couto -</strong> Hoje eu penso diferente que das outras vezes que estive no sindicato. Eu vejo o seguinte: não tem como eu chegar aqui e tirar da minha pasta um plano de trabalho. A intenção é fazer um planejamento estratégico de curto, médio e longo prazos durante estes dois anos. <br /></p><p><strong>Comércio - Hoje não existe este planejamento a longo prazo?<br />José Carlos -</strong> Não. Eu desconheço. Este trabalho não foi feito porque todos os presidentes de sindicato que estiveram aqui, inclusive eu na época, tiveram que cuidar de suas empresas. Eles não tinham tempo. Como eles fariam um trabalho profundo, bateriam na porta da fábrica para dizer “quero saber quais são as necessidades, interesses”? Por exemplo, quando foram montar o cluster em Franca, eu disse “isso não vai dar certo”. As pessoas disseram que eu era pessimista. Acontece que eles queriam começar a casa pelo telhado. Tem que ouvir as bases para ver do que ela precisa.<br /></p><p><strong>Comércio - Quais são os pontos em que o sindicato precisa ser mais atuante?<br />José Carlos -</strong> Primeiro, no planejamento. Tudo que eu disser para você, poderia cometer erros. Para não acontecer isso, eu preciso usar as ferramentas técnicas, profissionais. Não é um censo empresarial. É um levantamento de necessidades e interesses. Como é que você quer que um setor, que concorre entre si, se junte se a instituição não tem em mãos quais são os interesses comuns e quais são os individuais? <br /></p><p><strong>Comércio - Os problemas de Franca são os mesmos dos outros pólos?<br />José Carlos - </strong>Fala-se muito em Nova Serrana e no trabalho que eles fizeram lá. Talvez eles estejam um pouco na nossa frente, porque realmente nós poderíamos ter feito mais. Tudo indica que eles são mais unidos do que nós, que têm um sindicato bem montado, pessoal unido. Eu irei lá visitar, conversar com o presidente do sindicato. Nesse planejamento estratégico, antes de finalizá-lo, vou conhecer esses pólos, o que aconteceu lá. Está dentro dos meus planos a criação de um fórum permanente, porque é necessário saber quais são as necessidades, os interesses dos outros pólos. Para ver quais são como os nossos. Se forem 10 itens, então vamos focar. Estas instituições têm que estar unidas periodicamente e monitorando as ações para resolver problemas, com força em Brasília.<br /></p><p><strong>Comércio - Falta força política, uma bancada calçadista forte no congresso?<br />José Carlos - </strong>Falta. A minha visão é que a Abicalçados está desempenhando bem o papel dela, só que o foco dela é ser uma instituição política, cuja sede deveria estar em Brasília e não no Rio Grande do Sul. Com a realização de fóruns pelos sindicatos é possível debater alguns itens e entregá-los a uma instituição para nos representar em Brasília. Longe de querer montar uma federação ou uma confederação. Temos aí a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) que funciona bem, a (federação) do Rio Grande do Sul, de Minas Gerais. Então falta o quê? Nós darmos as ferramentas, cobrar resultados. Até porque em todos os governos, este ou o que passou, se você não estiver ali, cobrando dos canais competentes, você não vai trazer as coisas para Franca. Não vai resolver os problemas.<br /></p><p><strong>Comércio - Muitos analistas avaliam que a indústria calçadista, assim como a têxtil, foi deixada de lado. O senhor acha que o governo não está dando a atenção que deveria?<br />José Carlos -</strong> Passa governo, entra governo, tudo depende da atuação de cada instituição, porque lá (em Brasília) há interesses do Brasil inteiro. Quem agride mais, vai lá e insiste, consegue. O que falta é essa atuação. Mas neste governo, agora, pelo que eu vi do planejamento, o setor calçadista está colocado como um dos setores prioritários para ser atingido. No governo Fernando Henrique Cardoso, o que eu vi nele? Ele visitou Franca e tudo, mas não deu o retorno que ele prometeu. Agora, eu acho muito interessante o seguinte, nós temos que dizer para eles o que nós queremos, mas com base. Não é chegar lá e simplesmente pedir recursos sem mostrar resultado. O governo não vai chegar aqui fazer um investimento só por fazer. Ele vai ter que ter um retorno.<br /></p><p><strong>Comércio - Falta uma identidade do produto com a cidade, um selo “made in Franca”? <br />José Carlos -</strong> Já se falava desse selo no início dos anos 80 e eu vejo que pode ser feito. Mas é aí que está o negócio. Como vamos lançar um selo da cidade de Franca se você não tem união? Primeiro tem que unir. Pode ser até um selo verde, que está nos meus planos, mas primeiro é necessário reciclar. Este selo verde é uma bandeira. Você pode lançar o selo verde outro da marca Franca no exterior. Se se puder fazer um selo só que congregue as duas coisas, tudo bem. O mundo hoje está atravessando uma situação perigosa para o meio ambiente. Então, tudo que é produto que polui o meio ambiente não é bem visto. Agora você imagina se a gente chegar na Europa, nos EUA e disser que nosso sapato é ecológico, não polui. O que vai acontecer? Vai se pagar mais caro pelo nosso sapato. E a China, com aquela poluição toda? Quanto tempo ela demora para chegar nisso?<br /></p><p><strong>Comércio - Mas será que o setor industrial e governamental tem intenção em investir nisso? <br />José Carlos - </strong>Tudo é questão de estudo, pesquisa e até mesmo de sobrevivência. Tudo que é dividido não é caro. Você tem que conceber primeiro, fazer um trabalho profissional. Lógico que dentro deste planejamento estratégico terá de se fazer uma série de projetos. Dentro de cada projeto, fazer um estudo profundo e ver a viabilidade econômica e financeira e o resultado que ele vai dar. Aí vamos buscar recursos onde tivermos que buscar. Vamos buscar ajuda do governo. Ele não ajuda tantas instituições, não tem mais de R$ 200 bilhões de reserva e já se colocou à disposição. O que está faltando é chegar e apresentar isso. <br /></p><p><strong>Comércio - Qual foi a última grande conquista do sindicato?<br />José Carlos - </strong>A última grande conquista foi ter atravessado toda essa crise e ter montado uma instituição que nasceu aqui em Franca, que é a Abicalçados, há vinte e poucos anos. A Abicalçados, fortalecida por Franca, foi a grande vantagem para o setor calçadista, que dá força a todo o setor nacional.<br /></p><p><strong>Comércio - O senhor considera que hoje o sindicato é representativo?<br />José Carlos - </strong>Sim. Volto àquilo que eu disse. Cada um que assume tem uma empresa para cuidar e faz um esforço grande para vir aqui, largar a empresa dele, viver os problemas do sindicato, junto com outros colegas. O que ocorre? Ele não tem tempo para visitar os colegas. <br /></p><p><strong>Comércio - Existe uma alternância dentro do sindicato? Não são sempre os mesmos no comando?<br />José Carlos -</strong> Isso é sempre dito. Dizem que é sempre a mesma turminha que está lá, mas na hora de se candidatar, de alguém se oferecer para presidente, é um deus-nos-acuda. Então, essa história de falar que são sempre os mesmos, é porque o pessoal não quer. O que eu estou propondo aqui é dedicação full time que eu vou fazer. Nesse meio tempo eu espero colocar o sindicato de Franca no piloto automático. Criar uma câmara de serviços que atenda às necessidades deles, com profissionais e que o presidente não vai ter tanto trabalho como tem hoje. Até porque você vai ter um plano a ser seguido. <br /></p><p><strong>Comércio - Como o senhor avalia a gestão anterior (de Jorge Donadelli)?<br />José Carlos - </strong>A diretoria anterior fez um trabalho de saneamento do sindicato. Estão deixando o sindicato organizado, com saneamento financeiro e uma equipe muito boa. Se não tivesse essa estrutura, se tivesse que fazer todo o trabalho que eles fizeram, eu não teria condição de fazer o que estou falando para você. Estou recebendo o sindicato pronto.<br /></p><p><strong>Comércio - Como o senhor vê a demissão pela diretoria anterior de nomes como Ivânio Batista e Antônio Carlos Coutinho?<br />José Carlos -</strong> Acho perfeitamente natural. Acho que se não acontecesse hoje, aconteceria amanhã. O setor calçadista não mudou, não está exigindo mudanças, adaptações no novo cenário internacional, novo cenário nacional? Se você chega em uma empresa e diz que precisa fazer uma contenção de despesas ou uma mudança de rumo, ela faz isso direto. Está pensando nisso 24 horas. Não estou dizendo que os profissionais são ruins. São excelentes profissionais e prestaram grandes serviços para o sindicato. Eles começaram comigo no sindicato. Eu jamais posso criticar isso, até porque eu não estava aqui para ver, então eu tenho que ver que eles estão me entregando o sindicato enxuto para que eu possa fazer esses avanços. Não foi mudança motivada por deficiência profissional, acho que porque havia a necessidade real de mudar.<br /></p><p><strong>Comércio - O que o senhor considera o motivo do fim das grandes indústrias em Franca?<br />José Carlos -</strong> É importantíssimo analisar isso aí. É uma das coisas com que me preocupo porque nós temos uma empresa familiar, que é a Sândalo. Você vê que 99% das indústrias de Franca são empresas familiares. Você tem os fundadores e até certo ponto eles vão bem. Quando começam os sucessores, começam os problemas. O que ocorre é um problema na formação de sucessores. A empresa vai crescendo, a equipe também e a pessoa se esquece que os filhos têm que ser preparados para assumir o seu lugar. <br />Eu não vejo as empresas prepararem seus sucessores. Acho que o sindicato tem o dever de enxergar isso para a sobrevivência do setor. Nós temos que montar uma escola em Franca para preparar este pessoal. Pegar o filho do dono de uma empresa e colocar para conversar com o filho do outro, para começar a discutir, pôr um para trabalhar na empresa do outro, para ver o que é ser um funcionário, o que ele tem que fazer. Como eles vão administrar uma empresa se não sabem o que é o chão de fábrica? <br /></p>

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