O assunto havia sido esquecido por mais de 15 anos, mas a inflação voltou à pauta do dia do governo, de economistas, de estudantes e das donas de casa. A nuvem negra que acompanhou os brasileiros em sucessivos planos econômicos fracassados está longe de representar o drama que foi ser trabalhador no País pouco mais de duas décadas atrás, quando preços eram remarcados até duas vezes por dia em supermercados, postos de gasolina ou farmácias, mas está de volta.
Para entendidos, a ameaça inflacionária, com aumento generalizado dos preços, é real, muito embora as medidas governamentais para contê-la estejam corretas. Para quem vive de salário, no entanto, as contas não batem, e uma simples ida ao supermercado transforma-se em martírio.
A dona de casa Luci Ramos, 45, já não sabe mais o que cortar do orçamento de pouco mais de R$ 2 mil. Na casa em que mora, própria, no Jardim Dermínio, o carro na garagem, a TV a cabo e uma conta de internet são os poucos “luxos” a que ainda se permite e as três viagens que fez com a família para praias paulistas em 2007, neste ano ainda são lembranças.
“Cortamos tudo o que tinha para ser cortado. Somos controlados e economizamos com consumo de energia e água. A última vez que saímos para jantar em restaurante foi em abril, no meu aniversário. Diminuímos o consumo de carne e leite e roupa, quase nada”, disse ela, braços cruzados e semblante de quem não se sente nada confortável em admitir contenções desse tipo.
Luci mora com o marido, duas filhas, de 13 e 20 anos, e um neto, com 4. A casa, no Jardim Dermínio, em Franca, é própria. Na frente da residência, um pequeno salão de beleza transformou-se na principal fonte de renda da família, complementada por outros pequenos trabalhos.
Em seu salão, as repercussões do aumento do custo de vida são sentidas nas conversas e na freqüência. De dezembro para cá, acredita ela, a queda de clientes chegou a 40%. As que continuam indo, invariavelmente discutem os mesmos assuntos: o preço do arroz, a conta de luz e do supermercado. “Faço pesquisa e procuro comprar no lugar mais barato. Mesmo assim, sem nenhum supérfluo, são perto de R$ 120 por semana”, disse. “Não fico horrorizada com isso, fico revoltada. É assim que me sinto”.
REMÉDIO AMARGO
A pesquisa que as donas-de-casa, a exemplo de Luci, fazem tem um efeito mais psicológico que prático. No geral, os preços estão aquecidos em todos os segmentos, e não apenas em supermercados, onde o problema adquire sua forma mais visível.
Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) teve em maio a maior variação desde abril de 2005 e o pior mês de maio nos últimos 12 anos. No Brasil, a inflação nos últimos 12 meses foi de 5,58%.
Para o professor de economia da Faculdade de Direito de Franca e do Uni-Facef (Centro Universitário de Franca), Antônio Santos Moares Júnior, esse é um problema mundial. Prova disso está na previsão da Organização das Nações Unidas de que dois terços da população do planeta deverá conviver com inflação de dois dígitos ainda no segundo semestre de 2008.
Segundo Moraes, por anos seguidos o Brasil apresentou um crescimento econômico baixo. A população queria comprar, mas não tinha acesso, o que acabou gerando uma demanda muito reprimida. “A partir do momento em que houve a estabilização dos preços, queda da taxa de juros e aperfeiçoamento dos mecanismos de crédito, o consumo cresceu. As pessoas, que estavam com suas casas esperando por reforma ou querendo trocar de carro, começaram a comprar mais; isso é nítido”, explicou o professor. “Só que muito embora a produção tenha crescido, ela não aumentou na proporção da demanda, o que acaba gerando a expectativa de inflação”.
Para ele, a valorização do real frente à moeda americana, que fez o dólar cair de R$ 2,20 para R$ 1,65 em meses, foi a responsável pelo retardamento do sinal vermelho na economia. Como comparação, citou o preço do barril de petróleo, que dobrou em um ano, passando de US$ 70 para US$ 130. “Se não houvesse essa compensação cambial, com o dólar baixo, os combustíveis teriam dobrado no Brasil”, disse.
Agora, como não é possível imaginar que a moeda americana cairá para patamares muito inferiores ao que se encontra hoje, a valorização que até agora serviu para amortecer a pressão inflacionária, está chegando no máximo de sua eficiência. Ao governo, comenta Moraes, resta o remédio clássico, que é aumento da taxa de juros. Juros maiores, menor oferta de crédito, consumo menor. “É um remédio amargo, sem dúvida. As pessoas passaram a comprar menos. É ruim? Digo que sim, mas é o que vamos ter que fazer para controlar a inflação”, ponderou.
Na disputa entre governo e empresários, por exemplo, os argumentos são razoáveis dos dois lados. Para cada ponto percentual aumentado na taxa de juros, pessoas deixam de consumir e empregos deixam de ser gerados. Na opinião do professor da FDF, é melhor experimentar um processo drástico agora, algo que outros países que vivem sob a ameaça de inflação já fizeram.
“O governo dispõe de três políticas para lidar com a inflação: uma delas seria a redução dos gastos públicos, o que o Planalto não demonstra querer; a política cambial, com a valorização da moeda nacional, que chegou ao máximo, e a monetária, que aumenta ou diminui a taxa de juros. O governo brasileiro está agindo corretamente até agora”.
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