Insatisfação


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Insatisfação, para mim, é um sentimento de dois tipos diferentes. Um é o que domina quem tem o necessário para ser feliz, mas traz dentro de si um fastio e não tem boa relação com a vida. Nesse time está quem diz: Se tenho tudo de que preciso; por que me custa tanto dar um sorriso?. Essa é a insatisfação ruim, que afeta negativamente, revela desânimo, letargia. Quem se sente assim carece de ajuda, precisa encontrar-se, descobrir o modo sadio de encarar a existência. A outra insatisfação é saudável, própria de quem gosta da vida, quer que as coisas funcionem bem e empenha-se em lutar para mudar o que lhe desagrada; não é mero expectador, não tem medo de desafios, não perde tempo chorando o leite derramado, não se faz de vítima, não posa de injustiçado. São as pessoas dinâmicas, empreendedoras, criativas. A insatisfação para elas é sinônimo de entusiasmo, motivação, ação. Valorizam o que têm, o que são, mas não se atêm ao que já conquistaram, ao que já possuem. Estão sempre partindo para uma nova empreitada. Para tais pessoas, o que se faz, aprende, conquista, etc. vai se incorporando, solidificando, e isso contenta, porém sem levar à acomodação, pois vida é movimento, expansão, crescimento. É preciso gostar da vida e viver de forma a torná-la melhor para si mesmo e para os outros. Sempre há carências a suprir, caminhos a trilhar, espaços a preencher, degraus a subir, horizontes a descortinar. Não foi a satisfação, e sim o contrário, que levou à invenção de coisas fantásticas, como a TV, o gramofone, o telefone, o computador, a internet, etc. Prosseguindo, foi o espírito irrequieto que permitiu a incrível evolução de tudo isso. O ser humano tem enorme capacidade de criação, de descoberta. A inquietação que assola a alma humana impele à eterna busca do novo, do desconhecido, a perseguir sempre o aperfeiçoamento. Há sempre um passo a dar, um objetivo a almejar, um projeto a realizar, uma arte a aprender, um branco a colorir, um mistério a desvendar. Tudo é um eterno desenrolar. Esse anseio é o que nos move, é o combustível da vida. Sempre sonhar, sempre aprender, sempre conquistar, como o surfista que procura sempre a maior onda, o alpinista, a montanha mais íngreme, o escritor que busca inspiração para o seu melhor texto, o compositor, para a melhor canção, o jornal que se renova para agradar o leitor, o chefe de cozinha que quer o melhor sabor. Na esfera íntima é essencial a insatisfação. Não para menosprezar a si mesmo, mas para saber que sempre há algo a melhorar, a lapidar no nosso eu para ficar em paz com a própria consciência e para bem coexistir, fazer uso correto dos avanços tecnológicos. O homem precisa direcionar melhor a sua insatisfação, conciliar o desejo de descobrir com a necessidade de suprir primeiro as carências básicas. O crescimento humano deve ter como fim o bem da humanidade. Novas conquistas não podem deixar para trás necessidades não-providas. Não se pode dar o segundo passo sem ter dado o primeiro. Na sua incansável procura, o homem tem de priorizar sempre a vida, criar e modernizar coisas úteis sem se descuidar da preservação da natureza e da satisfação das necessidades vitais, tem de combater a fome e a miséria. Não condiz com a capacidade humana a dissonância que se revela no fato de que uma parte do mundo desfruta de tecnologia de ponta enquanto grande parte não tem nem casa nem comida. A insatisfação com isso deve ser o guia das nossas ações. Paulo Pereira da Costa Promotor, autor do livro ‘Pensando na Vida’ - E-mail: paulopereiracosta@uol.com.br

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