Está na Wikipédia, a enciclopédia digital livre da Internet (http://pt.wikipedia.org /wiki/Lei—de—Moore), a Lei de Moore (Gordon, fundador da Intel): “a cada 2 anos a capacidade de processamento dos computadores dobra, enquanto os custos permanecem constantes”.
Especialistas, ainda segundo a Wikipédia, acreditam que a visão deve ainda referenciar o setor por mais cinco gerações de processadores. E que o mesmo “princípio pode ser aplicado a outros aspectos da tecnologia digital”. Então, telefones celulares, também dotados de processadores, deveriam seguir a “lei” e não se transformarem em objetos do desejo capazes de nos fazer abdicar da função primeira do telefone, que é proporcionar comunicação rápida e urgente.
A indústria que produz essas maquininhas terríveis guerreiam para garantir que Aida nos convença a gastar todo o nosso rico e suado dinheirinho trocando o telefone que só é telefone por outro, que substitui o aparelho de som, a máquina fotográfica, a filmadora, o computador, nosso sistema arcaico de localização pelo “fabuloso” GPS, o velho álbum de fotografias, a máquina de calculador, a lanterna, o rádio FM, a televisão e pelo aparelhinho de comunicação do capitão Kirk, de Jornada nas Estrelas. E a gente vai à loja, escolhe um dentre centenas de modelos todos os dias lançados e embarca na maior furada de nossas vidas.
Você quer saber o que é Aida, não é? Anote aí: Mauro Salles, um dos mais importantes publicitários do País, me ensinou lá na Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo, na década de 1980, que Aida é o segredo mais guardado pelos marketeiros, no mundo. Não uma moça mas sim um acróstico, lembrete dos ponto chave do que precisamos para convencer alguém a ter o que não precisa: Atenção, Interesse, Desejo e Ação. Aida. Viu?
Funciona assim: eu tenho um telefone que resolve todos os meus problemas de comunicação rápida. Aí, vejo um anúncio que desperta minha atenção: “se você não tiver este telefone que faz pipocas enquanto você vê televisão, vai morrer com a boca cheia de formiga”. Aí eu penso: “Puxa, eu com um destes... Se eu estiver com fome, este telefone resolve o meu problema”. Me invade o desejo: “Vão todos ter inveja de mim”. E parto para o “crime”: compro. Aida fez mais uma vítima.
Passo a ostentar meu “troféu”. Na primeira esquina, sou surpreendido pelo amigo a quem pretendia causar inveja: “Que é isso, cara. Você está ultrapassado. Pipoca? O meu telefone é melhor que o seu porque faz pizza em doze sabores diferentes”.
Fico bravo. Ainda estou pagando meu “pipoqueiro”. E pior: de repente, não mais que de repente, ele pifa. O display com duzentos bilhões de cores fica preto, sem cor nenhuma. Não consigo acessar nada. E me lembro: não posso nem fazer uma simples ligação telefônica!
Vou à loja e clamo pela garantia. A loja me remete para a “autorizada”. Levo notas fiscais, declarações, termo de garantia. Me pedem 30 dias para analisar o aparelho. Passado o período, recebo o “laudo” vindo de “outra autorizada”, de outra cidade, porque a “autorizada” perto de mim não conseguiu botar meu display para funcionar: (atenção revisão! Não corrija nada! O que está na seqüência foi escrito como está e quero que seja mantido!!!): “o aparelho em referência foi submetido à análise técnica deste laboratório e foram constatadas placa com sinais de manutenção na blindagem e riscos na carcaça metálica e nenhuma altorizada do Brasil tem altorização para fazer reparo na placa (perdeu a garantia que cobre apenas defeitos de fabricação)”. Uau!
Então, ao mandar o aparelho para a “autorizada” mandar para outra, perdi, de uma só vez, a garantia e o próprio aparelho, que inutilizado estava e inutilizado continua, porque o laudo me acusa, na verdade, de “burro, idiota e ignorante, capaz de mandar a garantia para o lixo porque abri o aparelho, mexi na placa, risquei tudo e só depois mandei para a autorizada!!!”.
Sabe o que é pior? Como é que a gente prova que não fez nada disso? Gritando? As autorizadas não dão a mínima bola. As lojas que venderam também não, mas querem continuar recebendo as parcelas mensais da “máquina”. As indústrias que fabricam, pasmem, na maioria só ficam sabendo quando o cliente fica muito bravo e abre um processo no Procon.
NO PROCON
José Antônio Guimarães, diretor do órgão, anda bravo. Me disse que há 35 ações abertas contra duas empresas de assistência técnica de celulares em Franca que não resolvem os problemas e os devolvem na forma de “bananosas” aos clientes. “Não há nada que possamos fazer porque o senhor mexeu no aparelho e perdeu a garantia”.
NO PROCON 2
Ele também me disse que o problema é das lojas que vendem. E que está em conversação com o promotor de Justiça de Direitos dos Consumidor por causa da imensidão de causas protocoladas no órgão, contra quem vende os aparelhos. “Lojas e autorizadas têm culpa. Uma empurra o problema para a outra e ambas, o cliente ao descontentamento”.
NO PROCON 3
E completou: “sabe por que as autorizadas não dão conta do serviço? Porque não reciclam seus funcionários para trabalharem com a quantidade de modelos de celulares e das tecnologias dos aparelhos. O técnico põe a mão, tenta o conserto, não dá conta e pede a intervenção de outra autorizada, que recebe o aparelho em condições diferentes das deixadas pelo cliente. Não pode mesmo dar certo. São casos graves e vamos envolver o Ministério Público nisso”.
PARA FINALIZAR?
Ainda não. O Procon realiza, a meu pedido, um levantamento detalhado sobre o número de casos de gente que perdeu o telefone por “quebra de garantia, sinais de umidade e intervenção desautorizada no equipamento”. E Denilson Carvalho, ex-diretor do Procon e advogado especializado em Direitos do Consumidor, é duro: “os injustiçados podem se unir e propor uma ação coletiva”. A indignação dos clientes considerados pelas autorizadas como capazes de abrir o aparelho para dar, eles próprios, manutenção, cresce. Cansa ser considerado idiota. Acho que nem Moore tinha pensado nisso.
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br
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