Conheço alguém de comportamento inusitado que beira a estranheza. O sujeito é bem família, grande companheiro, discreto, inteligente, venceu na vida e pode-se dizer que goza de boa saúde mental. Apenas tem um jeito “anormal” – em tom de brincadeira –, com pessoas que privam de seu convívio. É comum vermos gente que coleciona figurinhas, selos, tampinhas, canecas, carrinhos de ferro, bonés, chapéus, chaveiros, super-heróis em miniatura, etc., etc. Incomum é quando descobrimos alguém que coleciona narizes de palhaço!
O sujeito que conheço coleciona narizes de todas as cores, formas e gostos, atribuindo a cada um significados curiosos. Segundo ele – o colecionador –, essa afeição excêntrica por nariz de palhaço começou depois que ganhou o primeiro nariz num protesto estudantil nos anos 80. De lá pra cá nunca mais parou de colecionar. Relata, inclusive, que sua compulsão por esses narizes o fez certa vez realizar uma encomenda virtual onde torrou muitos reais para importar um “narigão” de silicone movido a bateria, que acende e apaga automaticamente.
No escritório de sua casa existe um quadro fixado na parede onde os narizes ficam expostos, dependurados, separados pela cor, somando quase uma centena. Demandaria muito tempo para saber o significado de cada um deles. Entramos em consenso e decidimos tratar somente daqueles mais usados em ocasiões, onde, segundo ele, seria indispensável o uso.
Começamos pelo nariz amarelo, usado especialmente para recepcionar o cunhado de outro Estado, que passa parte do mês de dezembro em sua casa sem nada contribuir nas despesas; o verde-musgo é para os “amigos” que chegam para o churrasco em sua casa e levam lindas e saborosas folhas verdes de alface e couve; o roxinho para as visitas (aos domingos) que dizem: “estava aqui pertinho e resolvi fazer uma visitinha” (coincidentemente com as roupas de banho no carro para um mergulhinho na piscina), já ficando para o almoço; o tradicional nariz vermelho é usado quando é pressentido possível pedido de empréstimo, diz que funciona que é uma beleza, mantendo assim as amizades; o azul é hilário, somente usado a partir do terceiro dia de hospedagem da sogra em sua casa, como sinal que o tempo urge; o rosinha é usado estrategicamente quando a esposa está aborrecida com ele, diz que o significado é pedido de perdão, acompanhado de um convite para jantar fora. E por aí vai.
Disse então, que fazia uso diário de outro nariz. Não o tirava para nada, a não ser quando colocava outro. Para minha surpresa ele disse estar com o nariz posto! Confuso, eu disse que só via seu próprio nariz. Foi quando me surpreendeu dizendo que aquele nariz de palhaço era diferente dos outros colecionados, “invisível e abstrato”, e que eu também o usava. Dando exemplos, disse, “você o usa sempre que é compelido a comprar algo; quando paga altos impostos; enfrenta longas filas; é engabelado pela mídia; pelo mau prestador de serviços; ouve blá-blá-blás absurdos; confia demasiadamente nos poderes; e, principalmente, quando você deposita seu voto nas urnas” e aí, disse-me ele, “você atinge o ápice”. É quando se conscientiza que tem o “nariz”...
Não há como pensar o contrário: meu amigo não é anormal nem estranho, apenas tem mais “narizes de palhaço” do que eu...
Ricardo Veríssimo Júnior
Funcionário público, integra o Conselho de Leitores do Comércio
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