Pesquisa atirou no que viu e acertou no que não viu. Trata-se do estudo realizado pelo instituto TNS InterScience, que investigava a importância do estágio sob a óptica dos estudantes, gestores de recursos humanos e educadores, revelando o descaminho da política educacional brasileira. Como parte do levantamento das informações, a pesquisa reuniu dados sobre cada um dos três grupos entrevistados e foi surpreendida por um índice impressionante ao avaliar o perfil dos professores.
No Estado de São Paulo, dos 146 educadores ouvidos 66 do ensino médio e 80 do superior , apenas 37% dão aulas há mais de cinco anos, o que mostra o esvaziamento do corpo de intelectuais das escolas. Constata-se que é difícil para o docente seguir carreira acadêmica ou dedicar-se ao magistério principalmente pela falta de reconhecimento financeiro, aumentando consideravelmente a rotatividade dos professores. Assim, com a motivação do corpo docente posta à prova, é de se supor também que a qualidade das aulas sofra certa perda.
Do outro lado da carteira estão jovens que precisam de bases sólidas para construir conhecimento, pelo qual serão cobrados por toda a vida e pelo qual se destacarão no mercado de trabalho.
Pergunto: o que, se não uma boa formação técnica e pessoal, é capaz de selecionar um entre 1,7 mil candidatos que disputaram por uma única vaga de advogado júnior no concurso público da Petrobras? O exame recebeu 21,8 mil inscrições que fizeram a prova em 23 cidades do País para cargos de auditor júnior, inspetor de segurança júnior e técnico de perfuração e poços júnior, além do já mencionado posto de advogado júnior.
O estágio surge então como um dos mais interessantes complementos educacionais. Entre professores, estagiários e gestores de recursos humanos, são justamente os educadores que vêem mais a diferença entre um estudante que faz estágio e outro que não participa de nenhum programa de capacitação prática. Para 90% dos professores, o estágio ajuda e ajuda muito a aumentar a retenção das matérias. Além disso, para 53%, os estudantes estagiários se tornam ainda mais exigentes, passando a questionar mais durante as classes e a cobrar mais de quem dá aulas.
O estágio também ajuda a aprimorar a expressão oral e escrita (96%), a atenção nas aulas (89%) e, conseqüentemente, as notas (93%). Por tudo isso, 97% dos professores recomendam o treinamento nas empresas.
Um programa de treinamento nas empresas não pode e nem deve substituir a educação formal, mas é a resposta perfeita para as demandas da economia globalizada. Trata-se de uma experiência pedagogicamente enriquecedora e que deve ser multiplicada para números cada vez maiores de estudantes. Entretanto, ainda um milhão de jovens esperam por uma vaga e é nesse contingente que dorme o futuro do País.
Luiz Gonzaga Bertelli
Presidente executivo do CIEE, da Academia Paulista de História e diretor da Fiesp
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