Miopia


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Pronto. A campanha eleitoral nem bem começou e já virei alvo preferencial. Se na campanha para prefeito anterior fui o inimigo número 1 do tucanato, sou agora o novo desafeto-mor de membros ligados ao Partido dos Trabalhadores. Tudo por conta dos números revelados pela primeira rodada da pesquisa Comércio/Datalink. Publicada no último domingo, mostra um cenário muito difícil para as aspirações de Gilson Pelizaro, candidato do partido à sucessão de Sidnei Rocha. Vida de jornalista não é fácil. A bem da verdade, as insinuações contra mim e o jornal começaram um pouco antes, mais precisamente quando publicamos a entrevista exclusiva em que o prefeito Sidnei Rocha (PSDB) admitia publicamente pela primeira vez que era candidato à reeleição. Foi um belo furo de reportagem. Menos, é claro, para os apoiadores de Pelizaro. Via “Blog do PT”, espécie de veículo oficial do partido na cidade, comecei a ser alvo de insinuações e cobranças. Mas o caldo entornou mesmo foi com a publicação dos resultados da pesquisa. A partir daí começaram os ataques diretos. Eu, o jornal, a pesquisa, o instituto Datalink e seu proprietário, a metodologia, tudo foi desqualificado pelo politburo petista das Três Colinas. Na opinião dos sábios cientistas políticos do PT local, a pesquisa está errada, a interpretação do jornal foi tendenciosa, o governo Sidnei Rocha é mal avaliado pela população, sua rejeição é monstro, as chances de reeleição não são grandes e Gilson Pelizaro tem enorme aceitação popular e boas condições de vencer o prefeito num eventual segundo turno. Cada um acredita no que quiser, mas tenho comigo que o oráculo petista de Franca anda bem descalibrado. Há dois anos, numa idêntica tentativa de negação do nosso trabalho, os principais líderes do partido na cidade passaram todo o período eleitoral refutando os números da série de pesquisas Comércio/Datalink. Uma rápida consulta ao acervo do jornal mostra a capacidade de análise dos iluminados petistas. No dia 17 de setembro de 2006, a terceira rodada da série de pesquisas encomendadas pelo Comércio mostrava que Gilmar Dominici fora superado pelo folclórico Belão, prefeito de Restinga. Inconformado, Gilmar Dominici protestava. “Não acredito nesses resultados (...) há pesquisas nossas que não demonstram esse cenário”. Dias depois, em 21 de setembro, voltaria à carga. “Temos que ficar com um pé atrás em relação às pesquisas (...)”. Na matemática do ex-prefeito de Franca, ele faria 100 mil votos e seria eleito deputado federal. “A nossa projeção é de chegar a 45 mil votos fora de Franca e ter na faixa dos 55 mil votos em Franca”, apostava. Gilmar Dominici tampouco acreditava no cenário que se desenhava para a disputa de presidente da República em Franca. A pesquisa Comércio/Datalink mostrava ampla vantagem na cidade para Geraldo Alckmin (PSDB). Gilmar desdenhava. “Esse resultado é contraditório (...) Eu não acredito que ele (Lula) tenha só 22% em Franca”. Profético, apostava: “No dia 1º de outubro, poderemos checar”. O 1º de outubro chegou cruel para o petismo em Franca. O ex-prefeito alcançou apenas 20% dos votos que esperava na cidade e 30% do que projetou na região. Diferente dos 100 mil votos com que sonhou, recebeu 34 mil. Lula foi reeleito presidente da República, mas acabou massacrado em Franca por Alckmin. Acertamos 100% dos resultados. Terminada a apuração, Gilmar Dominici admitiu que deveria ter levado mais à sério as pesquisas do Comércio/Datalink. “Às vezes, fazemos análises que não correspondem à realidade. Vocês estão de parabéns pelo trabalho”, reconheceu, tardiamente. Há tempo para que o PT reveja seu modo de ação e abandone a retrógrada idéia de que aqueles que não defendem ou concordam com os candidatos do partido são contra ele. O papel da imprensa é registrar os fatos, criticar, denunciar, cobrar, e sempre abrir seus espaços para todas as manifestações, não apenas para aquelas que agradam determinado grupo. Este é a boa imprensa. Não a que publica só o que agrada, mas a que publica tudo que interessa à sociedade. Goste ou não o PT, de nossa missão não desviaremos um milímetro sequer. Quem apostar contra, vai perder. CORRÊA NEVES JÚNIOR é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

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