Marmita de preso é mais completa que de pobres


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COMPRA DO DIA - Marmitas dos presos chegam à Cadeia do Jardim Guanabara: comida vem de Orlândia todos os dias
COMPRA DO DIA - Marmitas dos presos chegam à Cadeia do Jardim Guanabara: comida vem de Orlândia todos os dias
João (nome fictício) divide uma das celas da Cadeia Pública do Jardim Guanabara com 13 presos. Todos têm direito a café, leite e pão com manteiga todas as manhãs. Apesar do aspecto pouco apetitoso, o almoço e jantar sempre têm arroz, feijão, carne, um tipo de legume e verdura, além de suco e sobremesa, que geralmente é doce-de-leite, paçoca ou banana. À noite, também recebem minipão. O cardápio não repete durante a semana. Nutricionistas têm função de garantir uma alimentação equilibrada e nutritiva. Neuza da Silva, 49, mora numa casa simples no Parque das Esmeraldas com mais cinco pessoas, sendo duas crianças de 7 e 11 anos. Pelas manhãs, tomam apenas café. Pão e leite só têm aos fins de semana e quando sobra dinheiro. Nas outras duas refeições do dia comem arroz, feijão e carne, mas só de três em três dias. Quando não têm dinheiro para a “mistura” compram ovo. “É mais barato que carne”, diz Neuza. Legumes e verduras também são artigo de luxo. A família só consome quando ganha de uma vizinha. As refeições são acompanhadas de água e limonada, também quando ganham limões da vizinha. Só com refeições, cada preso gasta R$ 8,71 por dia. Em Franca, mais de 62 mil pessoas vivem com menos da metade disso. Elas sobrevivem com R$ 120 ou menos por mês, ou seja, R$ 4 por dia para pagar não apenas despesas com alimentação, mas gastos com medicamentos, transporte, vestuário e contas de água, energia e moradia. A estimativa é feita com base nos dados da Secretaria de Desenvolvimento Humano e Ação Social. O órgão possui um cadastro único com pessoas que vivem na linha da pobreza e têm perfil para serem beneficiadas pelo programa Bolsa Família. Uma das exigências para concorrer ao benefício é ter renda per capita igual ou inferior a R$ 120. Neuza e seus familiares estão em liberdade, mas sofrem outras privações. Na semana passada, sem dinheiro, passaram quatro dias sem feijão e quando o arroz acabou, jantaram pão com mortadela. “Temos de comer o que tem, o que dá para comprar”, disse ela. A situação na casa da família complicou depois que Neuza teve depressão e sérios problemas na coluna que a impendem de trabalhar. O salário de R$ 420 que recebia faz falta, principalmente na hora de comprar alimentos. Os filhos ficaram desempregados muito tempo e só há um mês conseguiram serviço. “Eles ajudam, mas ainda falta. A coisa está feia. Tenho de ter muita fé em Deus. Se hoje não tem, Ele proverá no outro dia”, conforma-se. Os seis moradores consomem um quilo de carne por refeição. Não é todo dia que os pratos têm a proteína desse tipo de alimento. “Se faço carne hoje, só daqui três dias vamos comer de novo porque controlo o dinheiro para poder comprar linguiça, salsicha ou acém (carne de segunda). Pão? Não dou conta de comprar todos os dias não. Tem gente que tem e não dá valor”. A neta dela, Bruna Inácio, 7, já aprendeu as regras da casa. Ela disse que sente mais a falta de ter carne todos os dias, principalmente sua receita preferida: bife à milanesa. “Faz tempo que não como. Não temos condições de comprar. Aqui em casa é tudo controlado”. Ela ainda conta com reforço na sua alimentação na merenda servida na escola. [FOTO2] OUTRO LADO Apesar de serem servidos com um cardápio mais variado que o de muitas famílias carentes e terem certeza de que terão carne todo dia, os presos se queixam da alimentação servida na cadeia. “Para mim, a comida não seria ideal, mas se pensarmos que tantos passam fome, a comida é bastante razoável. Os presos estão alojados e reclamam mesmo, reclamam de tudo”, disse Donizete Ferreira, escrivão de polícia responsável pela licitação da alimentação dos presidiários. O carcereiro Donizete Camilo, encarregado da Cadeia do Guanabara, considera a refeição “fraca”, mas reconhece ser melhor do que a de muitos. “Alguns presos reclamam, outros se acostumam. É fraca, mas melhor do que a dos que estão na rua. Todo sábado, os presos comem a comida que as famílias trazem e nós doamos as marmitas deles em bairros carentes e os moradores adoram, até disputam os alimentos”. Até sexta-feira, 6, a cadeia estava com 380 presos. A comida servida três vezes por dia é fornecida por uma empresa de Orlândia (SP), localizada a 70 quilômetros de Franca, que transporta os pratos prontos todos os dias. Dois detentos falaram com a reportagem e disseram que a comida é insuficiente e sem tempero.

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