Para mudar o mundo


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DA MALÁSIA PARA FRANCA - O monge malaio Acharya Ranendrananda Avadhuta, carinhosamente chamado  pelos francanos de Dada, na casa de um dos membros da equipe de Yoga Franca, na semana passada
DA MALÁSIA PARA FRANCA - O monge malaio Acharya Ranendrananda Avadhuta, carinhosamente chamado pelos francanos de Dada, na casa de um dos membros da equipe de Yoga Franca, na semana passada
<p>Franca recebeu, na última semana, para um ciclo de palestras na UNESP e retiros espirituais com interessados no tantra ioga, o monge malaio Acharya Ranendrananda Avadhuta, de 46 anos, carinhosamente chamado pelos francanos de Dada, que significa “irmão” na língua hindu.</p><p><br />Membro da Ananda Marga - organização hindu que tem sedes no mundo todo com o objetivo da difusão da cultura e da filosofia tantra -, filho de indianos, Dada Ranendrananda nasceu e foi criado na Malásia, um país do Sudeste asiático. Imerso desde criança na cultura hinduísta, o chamado para a prática espiritual foi mais contundente: embora tenha se formado em engenharia química, não seguiu a carreira. “Minha família é espiritualista. Pratico o ioga desde criança. Isso vem da cultura hinduísta. Desde pequeno tinha o desejo de buscar o mestre. Aos 14 anos já praticava meditação e fazia estudos bibliográficos. Na universidade encontrei um monge que julguei ser o adequado para ser meu guia espiritual”, lembra ele.</p><p><br />Em 1989 foi para um centro de treinamento de monges iogues nas Filipinas. Posteriormente seguiu para a Índia, para finalizar sua formação monástica. O primeiro posto de trabalho surgiu na Turquia, onde exerceu serviço humanitário e social para vítimas de calamidades naturais. De lá, foi para os EUA e em 2004 aportou no Brasil. Atualmente vive em Belo Horizonte (MG), mas, pelo menos duas vezes por ano vem a Franca, onde possui devotos seguidores. Em entrevista ao Comércio, numa linguagem híbrida entre o inglês e o português com forte sotaque do bahasa melayu, que é sua língua nativa, o Dada falou com muito bom humor e descontração sobre o tantra, a vida monástica e a importância da Educação para o desenvolvimento de um mundo melhor, entre outros assuntos.</p><p> </p><p><strong>Comércio da Franca - O que é ser um monge?<br />Dada -</strong> É ser aquele que abdica da vida material, familiar e afetiva para se dedicar à vida espiritual e social. Escolhi esse caminho depois de descobrir, através da meditação, que tinha uma missão de mestre a cumprir. Consegui aprender muito acerca de minhas vidas passadas por meio da meditação. Descobri que havia me casado várias vezes e decidi que nessa vida deveria me dedicar a ser um monge e a trabalhar pela mudança do mundo, que está carente de verdadeiras lideranças.<br /><br /><strong>Comércio - Que lideranças seriam essas?<br />Dada -</strong> Liderança tem a ver com a capacidade de melhorar a sua própria vida ou até sacrificar-se em alguns aspectos, também pela vida do outro. Hoje, os líderes priorizam suas próprias vidas para depois, pensar no outro. Isso, na verdade, não é liderança. Sem ética, não se é líder. Na Ananda Marga temos vários níveis de liderança, em que a disciplina é fundamental.<br /><strong><br />Comércio - Mas como criar as tais lideranças éticas?<br />Dada -</strong> O primeiro passo é melhorar a Educação. Não só na escola, mas começando pelos pais. Aos 2 anos de idade, uma criança já sabe muitas coisas. Educação para crianças é antes de tudo educação para o amor e a ética, um Novo Humanismo. Isso a ajudará crescer melhor.<br /><br /><strong>Comércio - Num momento em que a instituição família anda, por assim dizer, um tanto confusa, como esperar dela tal embasamento educativo?<br />Dada -</strong> Se não tiverem essa base em casa, a escola precisa oferecê-la, desde a creche. Orientar a criança para o humanismo, para a ética, o amor ao próximo, a necessidade de ajudarmos os outros. A educação deve direcionar nossa vida também para o plano espiritual. Isso não significa abrir mão dos aspectos materiais, mas as práticas espirituais devem se incluir na formação de um ser humano. Somos consciências. <br /><br /><strong>Comércio - E como, no tantra, seriam essas práticas?<br />Dada -</strong>Temos as instâncias física, psíquica e espiritual. A meditação e o mantra são práticas espirituais que alimentam a mente e o espírito, bem como o cultivo da arte, da música faz bem ao espírito. Falamos de uma educação para desenvolver não somente o intelecto, mas também a intuição.<br /><br /><strong>Comércio - Ser um monge iogue significa abdicar também do sexo?<br />Dada -</strong> O monge precisa ter disciplina. Pode ter amor num nível mental, mas não físico. Se quer amor físico, não pode ser monge. Dedicamos a vida para tentar criar uma nova sociedade, novas lideranças.<br /><strong><br />Comércio - Fale em linhas gerais da prática da meditação no tantra. <br />Dada -</strong> A prática da meditação busca o conhecimento da mente, que, para nós, não é uma entidade autônoma e isolada. Consideramos nela seus três aspectos: mente consciente, mente subconsciente, mente supra mental, mente subliminar, mente racional instintiva, mente intelectual, mente intuitiva. <br /><br /><strong>Comércio - Mas o tantra é entendido, no senso comum, como algo relacionado ao desenvolvimento em nível sexual, não?<br />Dada -</strong> tantra é uma palavra com dois radicais que também vem do sânscrito. Tan significa expansão, tra, significa libertação. É uma prática que visa libertar a mente das limitações físicas, psíquicas e espirituais através de sua expansão. Para expandir a mente temos várias práticas de meditação no ioga. Para o tantra, o ser humano tem três corpos: o físico, o psíquico e o espiritual. Há ainda o corpo coletivo, o que chamamos sociedade. Para o tantra, o desenvolvimento da sociedade é fundamental. A idéia é o desenvolvimento individual e coletivo.<br /><br /><strong>Comércio - Isso significa então que há outras linhas do tantra, uma vez que a prática que você diz prega o comedimento?<br />Dada -</strong> O que há, nesse tantra relacionado a sexo, é uma interpretação intelectual errada da filosofia que vem de mais de 1,5 mil anos. O tantra fala do controle da energia vital. Esses intelectuais interpretaram tal energia como sendo a sexual. É normal gostar de sexo, mas, na verdade, precisamos controlar nossa energia, para acordarmos a kundalini, que é a energia espiritual. O ideal é utilizarmos o excesso de energia vital de quatro a cinco vezes por mês para a prática do sexo. Professamos o tantra “branco” (risos).<br /><strong><br />Comércio - Qual é a diferença da divindade Shiva com Sava Shiva, o alegado criador da prática e da filosofia do ioga?<br />Dada - </strong>Shiva é o deus informe do hinduísmo. Já Sava Shiva foi o homem que há 7 mil anos criou o ioga, ensinou a dança hindu, ensinou as notas musicais, medicina natural, revelou os chacras, foi o primeiro humano a realizar o rito do casamento, declarou a igualdade entre homens e mulheres.<br /><br /><strong>Comércio da Franca - O seu nome tem, como todos os de origem hindu, um significado, não?<br />Dada -</strong> Sim. Ranendrananda é a junção de três palavras que significam “comandante do campo de guerra para a bem-aventurança interna e externa”; é o nome espiritual, que ganhei na Ananda Marga.<br /><br /><strong>Comércio - O seu nome implica liderança...<br />Dada -</strong> Sim, liderança social e espiritual. Se não controlarmos a nossa mente, a nossa mente é que passa a nos controlar. A mente é influenciada pelas emoções. Temos os subchacras que representam tendências mentais. Cada uma tem uma vibração e são influenciadas por nossa alimentação. Elas se conectam aos centros de energia que são os chacras. <br /><br /><strong>Comércio - O tantra, linha dentro do ioga da qual você é praticante, diz que nós nascemos com essas tendências?<br />Dada - </strong>Sim, são tendências que trazemos de vidas passadas e carregamos em nosso corpo e mente. Uma pessoa deficiente certamente fez algo na vida passada e o carrega na vida atual.<br /><br /><strong>Comércio - Seria o mesmo conceito de carma?<br />Dada - </strong>Sim, mas, a palavra carma foi usada erroneamente. Carma significa ação. A palavra que expressa, no sânscrito (antiga língua hindu), o sentido de reação em potencial, no caso, mais cabível, é samskara. Mas a idéia de trazermos dívidas de vidas passadas é a mesma do budismo, que aliás, nasceu do hinduísmo.<br /><br /><strong>Comércio - Como você vê a Índia capitalista?<br />Dada -</strong> Há na Índia, como em vários outros locais do mundo, grupos se insurgindo contra o materialismo capitalista. Temos na Índia 80% de hinduístas. É uma civilização de mais de 7 mil anos que cultiva a espiritualidade. O problema é o materialismo destruir a cultura da espiritualidade.<br /><br /><strong>Comércio - Com os seus olhos de estrangeiro, como você avalia o Brasil?<br />Dada -</strong> Quando cheguei aqui, percebi que os brasileiros cultuam vários templos de Brahma (risos). Mas, Brahma, na Índia, significa Deus, ou “grande que cria outros grandes”. Aqui... Brahma é outra coisa... (risos). Mas vejo os brasileiros como um povo que cultua a espiritualidade, embora isso também venha diminuindo aqui, por causa do apelo materialista. O brasileiro é muito amoroso e direciona esse amor para o plano físico (risos).<br /><br /><strong>Comércio - No budismo, o objetivo final é a iluminação, que inclui o fim do samsara, ou seja, a cessação do ciclo vital, o não-renascimento. E para o tantra, qual é a iluminação?<br />Dada -</strong> O budismo vem do hinduísmo. O Buda praticava tantra também, que prega a união da mente unitária com a mente cósmica. O objetivo do tantra é alcançar a consciência suprema.<br /><strong><br />Comércio - Qual o seu interesse em Franca?<br />Dada -</strong> Temos muitos devotos e interessados aqui. Luís Fernando Zen, membro da Ananda Marga, me convidou para vir a Franca. Nós nos reunimos para meditação e palestras sobre Biopsicologia, dos subchacras que busca as origens das tendências mentais e orienta acerca das melhores asanas (posturas em ioga) para cada caso. O tantra deve ser uma prática regular e diária. A disciplina é importante e se traduz pelo uso dos mantras, que são vibracionais em termos de energia.<br /><br /><strong>Comércio - De que forma se pode chegar ao autoconhecimento sem a verbalização, sem a troca presente na comunicação?<br />Dada -</strong> Através de práticas devocionais e meditação. Devoção significa amor a Deus. No tantra, amar a Deus se cumpre através do serviço social, da ajuda ao próximo. A meditação é a forma de conhecer Deus.<br /><br /><strong>Comércio - Vocês partem então do princípio filosófico inscrito na saudação tibetana “Namaste”, que crê na existência de Deus em cada ser e que diz “o deus que me habita saúda o deus que há em ti”?<br />Dada - </strong>Sim. No sânscrito a saudação é “Namaskar” e tem o mesmo significado. Seres humanos são consciências divinas e isso deve ser reverenciado.  <br /></p>

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