Mais um na multidão


| Tempo de leitura: 3 min
Em 1990 eu fui o primeiro colocado num concurso para escrevente da Justiça do Trabalho, cujos vencimentos eram bem maiores do que o meu salário na Nossa Caixa. No dia que soube do resultado, fiquei com o ego tão inflado que mal cabia em mim. Transbordante, liguei minha Brasília 77 e saí. Queria me mostrar. Acho que, no fundo, desejava que todos me vissem, me apontassem, dissessem com admiração: “é ele!”. Já era fim de tarde e havia aquele movimento típico dessa hora. Na avenida principal, gente subindo, gente descendo, a pé, de carro, de bicicleta, saindo do trabalho, indo embora. Mas ninguém me percebia, ninguém me via passar. Nenhum cumprimento, nenhum aceno. As pessoas seguiam apressadas, presas às próprias preocupações, aos próprios problemas, cada uma ocupada com sua vida. Ocorreu o contrário do que eu esperava, pois no fim, em vez de atrair a atenção, fui eu que, na minha solidão, fiquei observando o vaivém. Nos dias que se seguiram, acabei recebendo muitos cumprimentos dos amigos, mas constatei duas coisas: que eu era apenas mais um na multidão e que a felicidade da gente não precisa ser nem permitida nem referendada pelos outros. O ser humano é complicado. Quando está feliz, tem medo de que alguma coisa ruim possa acontecer e estragar tudo; persegue a felicidade, mas quando tudo parece perfeito, bate aquela desconfiança, aquele “grilo” do tipo “tá tudo bom demais pra ser verdade”. Quando está infeliz, amplifica a causa e esquece as coisas que podem ajudar a superar tal estado de espírito. Às vezes a gente sente culpa por estar bem e saber que muitas pessoas não estão. O que fazer? Depende da situação. Mas é um erro condicionar a felicidade. Não há pecado nenhum em ser feliz, desde obviamente que não seja à custa da desgraça alheia. Quem fica incomodado com a felicidade alheia é porque não está aproveitando o tempo para procurar a sua. Somos dependentes demais. De elogios, de reconhecimento, de coisas materiais. É bom reduzir a dependência às imposições naturais, das quais não se pode livrar. Ninguém consegue viver sem comer, sem dormir, sem respirar... Entretanto, sem muita coisa dá para passar. Não se morre por ficar alguns dias sem carro, sem TV, sem abrir a caixa de e-mail, sem celular. Cria-se a idéia de que certas coisas são indispensáveis e então a gente se torna dependente delas. Artigo recente do Daily Mail revelou que 53% dos britânicos que possuem telefone celular sofrem de “nomofobia”, medo de esquecer ou perder o aparelho e ficar incomunicável. É necessário ter boa relação consigo mesmo e, às vezes, ficar só para refletir e resolver os males da alma. Conflitos íntimos malresolvidos impedem a pessoa de estabelecer uma relação agradável com os que a cercam, de ter uma interação saudável com o mundo, de contagiar positivamente os outros. A despeito da real importância de cada um de nós, a gente não é o centro do Universo. O nível de independência está diretamente ligado à capacidade do indivíduo de agir da melhor maneira possível, em casa, no trabalho, em sociedade, sem se preocupar com retribuição, reconhecimento, elogios, mas sim para atender às próprias exigências e ficar em paz consigo mesmo. Saber adequar os desejos às reais necessidades é ser independente. Ter um espírito forte para enfrentar com serenidade as inconstâncias da vida, idem. Nem descartável nem insubstituível, nem mocinho nem vilão, apenas um ser limitado e falível, apenas um na multidão. E quer saber? Tá muito “bão”! Paulo Pereira da Costa Promotor de Justiça. E-mail: paulopereiracosta@uol.com.br

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários