Saúde?!


| Tempo de leitura: 5 min
Nestas últimas semanas conversei muito com médicos experientes. Discutimos questões fundamentais sobre o respeito à vida, razão principal, determinante e inegociável da vocação médica. Concordaram comigo que há coisas que a vã filosofia não explica. Talvez - e infelizmente - só a economia... Não ando feliz com a Medicina que tenho, que minha família tem e olhe que pago uma boa nota mensal por assistência médica. E a julgar pelos pontos-de-vista de usuários do sistema público de saúde ou de convênios que diariamente se dão a conhecer ao jornalismo que exercito, a maioria da população também não anda. Há um grito surdo, contido, no ar. Os usuários dos prontos-socorros municipais ou dos hospitais falam baixo, quase sussurrando, que está morrendo “aquela crença que unia a gente aos ‘nossos’ médicos, gente que tinha tempo para conversar. De quando em quando, só a conversa bastava. Não precisava nem remédio”. Hoje, a doença tem caminho traçado: espera de muitas horas, atendimento rápido – rapidíssimo!; anda depressa que atrás vem gente! – ; remedinho tipo panacéia para todos os males, quase nenhum exame que permita melhor compreensão da doença. Se solicitadas a tornarem suas vozes mais audíveis, as pessoas se recusam. “Não quero falar. Não há como saber se aquele que me atende mal hoje será o mesmo que verei na cirurgia que a gente – mesmo sem querer – fará amanhã. Não dá para confiar”. Quanto mais aumenta a sofisticação tecnológica, mais despenca a capacidade de relacionamento humano da maior parte dos profissionais de Medicina. Em face da necessidade de alcançar um determinado padrão de ganhos, a quantidade de atendimentos vale mais que a qualidade da dedicação aos pacientes. Nos plantões, estão os estudantes residentes, aqueles que cumprem a última parte da formação médica. Há os educados, que se levantam quando o paciente chega. E há os outros, aqueles que querem se desvencilhar o quanto antes do adoentado. Não olham os pacientes nos olhos; conversam menos do que o mínimo indispensável; não se levantam. Escrevem receitas em tempo recorde. O paciente, mal diagnosticado, tem que voltar, gerando mais uma guia de consulta, mais uma despesa para pagar. Algumas fontes contaram-me, há algum tempo, sobre o sistema de remuneração. A consulta perfeita é aquela que não gera pedidos de exames. O “processo de comunicação” se encerra na receitinha de “novalgina”, “voltaren”, “dramin”, “aerosol”. Neste caso, o profissional se remunera na faixa melhor. Se for rigorosamente necessário um raio-X, um exame laboratorial, a faixa de remuneração torna-se menor. Aumenta a necessidade de atender mais pacientes, para recompor a renda mensal. Há mais. Sabe por que nunca há médicos suficientes nos convênios, para melhorar a rapidez de atendimento? Ou por que poucos profissionais não têm mais datas em suas agendas? Ou ainda, por quê há poucos profissionais nas urgências e emergências? Simples: o resultado das “contas” deve sempre remunerar “em determinado valor mensal” cada profissional envolvido. Então, a demanda deve ser equanimemente dividida. A exemplo: qual a demanda para oftalmologia, ao mês? Mil consultas? Então, se há dois médicos cotistas no grupo da casa de saúde, deve-se “garantir” a cada um quinhentas consultas, que gerarão determinada remuneração a cada um. E que os atendimentos sejam cada vez mais rápidos... Negócios. Meramente negócios. Há muito mais, mas paro por aqui. Embora este seja um assunto “perigoso” como dizem assustados pacientes, não pretendo ferir a dignidade da nobre classe médica e, muito menos, de profissionais que levam a sério essa coisa de “ser médico 24 horas por dia”. Quero apenas fazer pensar um pouco instituições e profissionais que tratam usuários como números e não como vidas que precisam de atenção. Tomara que a tendência de crescimento do número daqueles que se lembram só das aulas de economia profissional – “fazer fortuna no menor espaço de tempo possível” – rapidamente se estabilize e decresça, em relação ao de humanistas, perfil em extinção, infelizmente. CENA 1 Uma senhora de 82 anos passa por consulta em casa de saúde e lhe é pedido exame de urina. Ela colhe material e recebe ordem para aguardar na sala de espera por 2 horas. São 15 horas. Às 18h15, cansada, liga ao filho e pede ajuda. O filho liga para a administração, dá o nome completo da mãe e é informado pela telefonista que a paciente “continua na sala de hidratação, porque os remédios para pressão que foram administrados não surtiram efeito e que foram ministrados mais remédios”. O filho se surpreende: “deve haver algum engano. Ela está aguardando resultado para um exame de urina!”. CENA 2 A telefonista não se abala. “Não senhor. Ela está na sala de hidratação, conforme acaba de me dizer a enfermeira responsável pela área”. O filho diz novamente o nome da mãe e a telefonista confirma. “Ela está na hidratação e tem acompanhante”. O filho liga ao telefone celular da mãe. Ela atende e diz que continua esperando “na sala de espera” e que está realmente acompanhada: “por Deus...”. CENA 3 O filho volta a ligar para a administração. Atende alguém da recepção. Ao ser perguntado sobre a presença, ali, da senhora “fulana”, põe o telefone de lado e se dirige ao grupo dos que esperam: “está aqui dona fulana?”. Duas senhoras levantam a mão. Havia duas senhoras “fulanas”! E nenhuma, na “sala de hidratação”. CENA 4 No momento em que se dá a conversa com o atendente chegam ao ambiente o médico que pediu o exame e... o próprio exame, através de um entregador. Tinha sido feito fora do hospital em... quatro horas! O médico conversa com o filho e é cobrado sobre a espera de tempo dobrado exigido a uma senhora idosa. E ele, categórico: “não tenho nada com isso...”! Aquela senhora tinha razão: ainda bem que Deus, que é “por nós...” a acompanhava... Luiz Neto Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários