No auge do debate e na iminência da ressurreição da CPMF eis que me reencontro com um velho conhecido. Ele havia cruzado meu caminho em meados dos anos 90 quando fazia meu mestrado em promoção da saúde. O encontro foi casual, sem maiores intenções, pelo menos de minha parte.
Os anos passaram e, como que por obra do Divino, nos reencontramos. Ele estava ali na minha frente, todos os outros do mesmo gênero estavam de lado na organizada prateleira da livraria Saraiva, mas ele não, ele estava de frente para mim. Não pude evitar, aquela era a hora. Devo confessar, devia tê-lo comprado antes; devia tê-lo lido no século passado.
A obra O Ponto de Mutação do físico Fritjof Capra foi publicada em 1983, mas lida nos dias atuais é de uma sensatez irritante, de uma lógica constrangedora para um simples mortal como eu.
Decidi não obedecer aos parâmetros de leituras convencionais, talvez pela ansiedade em encontrar respostas para algumas perguntas que me atormentam noite e dia. Numa espécie de roleta-russa literária fui surpreendido vez por vez com o que Capra havia escrito há 25 anos.
É evidente que a obra está longe de ser unanimidade, mas na página 309 é possível ler que “administrar remédios para doenças que já se desenvolveram (...) é comparável ao comportamento daquelas pessoas que começam a cavar um poço muito depois de terem ficado com sede, e daquelas que começam a fundir armas depois de já terem entrado na batalha. Não seriam essas providências excessivamente tardias?”.
Se por um lado a pergunta incomoda, provoca, dilacera convicções, sob olhar mais cuidadoso nos faz pensar - é de mais dinheiro que o sistema público de saúde brasileiro precisa? Não deveria ser a saúde um tema obrigatório na agenda de políticas públicas de todos os ministérios? Saneamento básico é saúde ou infra-estrutura? Nutrição balanceada e saudável é saúde ou segurança alimentar? Preservação do meio ambiente é saúde ou questão filosófica? Porque não construímos um projeto de saúde pública em que a palavra de ordem seja prevenção?
Através de mecanismos eficientes de educação para a saúde é possível investir dinheiro público em ações que efetivamente se convertam em mais saúde, me-lhor qualidade de vida para a população. Dados científicos mostram que para cada um real gasto em prevenção, outros milhares são economizados em processos curativos nem sempre eficientes.
Compreender Capra em 1983 talvez fosse prematuro. Não aceitá-lo no ano 2000 talvez tenha sido ingenuidade. Renegá-lo em nossos dias, certamente será a maior prova de que somos chamados de “Homo sapiens” apenas porque fomos nós mesmos quem criamos tal denominação.
Alexandre Leonel
Farmacêutico, conselheiro do Comércio da Franca
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