O motorista que possui habilitação expedida pela Ciretran de Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo, deve começar a se preocupar. A Polícia não tem dúvidas de que intermediários da quadrilha desmantelada durante a Operação Carta Branca tenha vendido muitas CNHs na região de Franca. A carteira falsa recolhida com o lavador de carros Joal da Silva, 48, não foi um episódio isolado. Somente em Guará, a 60 km de Franca, a Polícia Civil já identificou outras seis pessoas que obtiveram o documento de maneira fraudulenta. Duas delas prestaram depoimento e confessaram ter feito a compra sem sair de casa. As investigações continuam e podem respingar em mais envolvidos.
O delegado José Augusto Franzini assumiu a delegacia de Guará no começo do ano e passou a ouvir comentários de que havia um homem na cidade oferecendo CNHs para pessoas com dificuldades em obter a habilitação da maneira convencional. No dia 30 de maio, antes do escândalo ganhar repercussão nacional, sua equipe recebeu denúncia anônima e chegou ao lavrador Vilmar Lopes Marcineiro, 26.
Natural do interior do Piauí, ele se mudou para Guará a fim de trabalhar no corte de cana. "Trata-se de uma pessoa humilde que não sabe ler e escrever. Disse ter sido procurado em setembro de 2006 por alguém que não soube identificar, que lhe propôs o negócio. Ele pagou R$ 1,4 mil e recebeu a CNH dias depois sem sair de casa ou fazer qualquer tipo de exame".
Com a descoberta, o delegado determinou que fosse feito um levantamento na Ciretran sobre as CNHs oriundas de Ferraz de Vasconcelos e que haviam sido transferidas para Guará. "Identificamos seis documentos nesta situação. Dois dos condutores já foram ouvidos e confessaram ter comprado o documento sem sair de casa. Os demais já foram intimados para prestar depoimento. Não posso afirmar que seja de Guará, mas tenho certeza de que há um intermediário da quadrilha atuando na região".
Segundo os responsáveis pelas investigações, o alvo principal da organização criminosa eram analfabetos e portadores de deficiência física. A Ciretran de Ferraz de Vasconcelos emitiu, ao menos, 1.231 CNHs por meio do sistema fraudulento nos últimos dois anos. Estima-se que a quadrilha tenha movimentado cerca de R$ 1,3 milhão. "É possível que parte destas habilitações tenha vindo para a nossa região, mas não temos como falar em números. Se não recebermos denúncias, só ficaremos sabendo da existência no momento em que derem entrada na Ciretran para serem renovadas ou transferidas. Estamos trabalhando para identificar os envolvidos", afirmou o delegado seccional, Maury de Camargo Segui.
SOB INVESTIGAÇÃO
Em outubro do ano passado, policiais da DIG prenderam o dono de uma auto-escola situada na Rua Doutor Júlio Cardoso, Centro, sob a acusação de fraudar o exame para tirar a CNH. Segundo a polícia, ele usava “laranjas” para fazer a prova teórica no lugar de analfabetos ou de pessoas que enfrentavam dificuldades em responder às 30 questões. Recebia de R$ 300 a R$ 500 para entregar a carteira de maneira ilícita aos interessados. Há três meses, ele voltou a ser detido acusado de receptar uma carga de couro roubada avaliada em R$ 100 mil.
A polícia apura se o acusado tem algum tipo de ligação com a quadrilha que agia em Ferraz de Vasconcelos.
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