Quando fui criança, como qualquer outra criatura na tenra idade, brinquei muito. Recordo daqueles momentos especiais com muito saudosismo. Brincávamos de “pique-esconde”, “pique-ajuda”, “vivo-morto”, “matança”, “bolinha de gude” e, não poderia faltar, o “golzinho” que acirrava os ânimos. Nutria-se o desejo fervoroso pela vitória, em poder sentir a emoção e o contentamento extasiante.
Ainda me lembro como se fosse hoje, que havia outras crianças da mesma faixa etária em que a natureza lhes fora mais generosa na compleição física, eram mais altos, mais fortes. Tamanho naquela época era sinônimo de liderança e respeito, e quem tinha corpo franzino e um pouco de juízo, obedecia.
Aquele era o nosso “mundico”, uma espécie de ensaio inconsciente que antecedia à inserção do grupelho ascendente na sociedade, que viria mais tarde naturalmente ao tomarmos conta de que éramos gente e de que as responsabilidades da vida repousariam inevitavelmente sobre nossos ombros à medida que crescíamos.
Mesmo com nossas inexperiências e possíveis conceitos equivocados relativos à pouca idade, havia código, norma, regra; ou seja, era considerado “café-com-leite” (aquele que brincava, mas não valia) o coleguinha que tinha dificuldades em ser mais rápido, mais esperto, ou que apresentasse déficit de reflexos ou de maior percepção que viesse a comprometer o desempenho nas atividades (brincadeiras) em que competíamos entre nós. Sem saber, mas instintivamente, estávamos na verdade nos preparando para uma etapa crucial da vida: a do mundo adulto. Onde a disputa por espaço requer habilidades particulares e distintas que ficam a cargo de cada um, inclusive, os resultados.
Havia naquela época, dois perfis de ‘café-com-leite’ em nosso grupo de coleguinhas aspirantes a gente: aquele que passivamente aceitava a sua condição e se conformava em não ser levado a sério perdendo credibilidade; e o outro que rejeitava o rótulo pejorativo e humilhante que atentava contra sua dignidade humana resistindo heroicamente.
No primeiro perfil percebia-se que a condição de “café-com-leite” não o incomodava, muito ao contrário, sentia desobrigado, livre do bom desempenho nas competições, sentia também o seu “ego” ser massageado quando alguém dizia: “o fulano” é “café-com-leite”! E aquilo soava e ressoava deliciosamente em seus ouvidos dando a sensação de privilégio num misto de proteção e justificação pela sua personalidade frágil, amedrontada. Já o outro perfil rechaçava o tratamento, queria ao menos o direito de competir com igualdade, mesmo que sofresse derrotas, que essas fossem - lutando!
Acontece que fragmentos desses estigmas de infância quase sempre carregamos pelo resto de nossas vidas. Se olharmos atentamente para alguns adultos (crianças crescidas) evidenciaremos comportamentos tal como de uma criança que ainda não se livrou do estereótipo ‘café-com-leite’ que massacra a personalidade comprometendo a auto-estima.
A liberdade surge ao ‘café-com-leite’ quando a simples “figuração” não lhe serve mais, reage à vida assumindo riscos, renunciando ao medo.
Ricardo Veríssimo Júnior
Funcionário público, ex-conselheiro da Saúde e conselheiro do Comércio.
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