Era para ser apenas um jantar romântico, mas o vinho fez efeito e vocês estão quase subindo pelas paredes. Ali não dá. Em casa, seus pais devem estar vendo novela ou futebol. Que tal um motel?
Proposta aceita. Agora vai! Vocês pagam a conta, entram no carro e, ainda vestidos, partem rumo à felicidade. Param na portaria começa a aflição: “Nossa parece que já ouvi essa voz. Será que a recepcionista me conhece? É a mulher do banco ou da faculdade? Será que é aquela da boate? Putz... da igreja! Nossa, da igreja não, Deus me livre. De onde então? Tô perdido”, você começa a se perguntar enquanto se encolhe no banco e sente um calor intenso tomando conta do seu rosto.
Tudo bem, na hora todo mundo torce para não conhecer a recepcionista do motel. Mas sempre fica a vontade de saber quem está do outro lado daquela janelinha indiscreta. O Se Liga foi descobrir quem são essas pessoas que, enquanto você se prepara para o oba-oba, cumprem sua jornada de trabalho. Profissionais que viram na atividade a chance de engordar o orçamento e que, em muitos casos, não pensam em deixar a profissão. Para eles, a palavra de ordem é discrição. O bom é que isso não impede que essas pessoas presenciem histórias inesquecíveis e, claro, contem para gente.
PELAS RUAS
Franca tem em média dez motéis espalhados pela cidade e na maioria deles trabalham mulheres com idade superior a 30 anos. Mas o mercado também é oferecido para os mais jovens, que trabalham em média oito horas por dia em um dos três turnos. Períodos mais extensos de 12/36 (trabalham-se 12 horas seguidas e folgam-se 36) também são comuns nessa área e cada motel monta a sua própria jornada. “A gente é responsável por controlar a entrada e saída de clientes, anotar os pedidos dos quartos e receber. No início era estranho, mas agora já me acostumei. É uma profissão como as outras”, disse Natália*, 25.
Há seis meses, depois de trabalhar como sapateira e vendedora, Natália resolveu mudar de profissão para ganhar mais e conseguir ser registrada. Atualmente trabalha em um dos motéis mais conhecidos da cidade e não pensa em sair, a menos que encontre algum emprego que valha a pena. “Minha tia trabalha como cozinheira aqui e me falou que eles estavam precisando de recepcionista. Topei, agora recebo R$ 520 por mês com direito a registro em carteira e cesta básica”.
Segundo Natália, o serviço não é ruim, nem puxado. “Temos movimento todos os dias. Chegada de clientes, o telefone que não pára, não fico quieta um minuto. De manhã o volume é menor, a tarde é completamente imprevisível; já cheguei a colocar uns 30 carros para dentro neste período. Mas à noite é bem mais apertado, principalmente de quinta-feira em diante”, completa.
A recepcionista Cláudia*, 29, também concorda. Ela trabalha todos os dias das 7 às 15 horas e, além de atender os clientes, é responsável pelo fechamento de caixa e compra de produtos. Registrada, ela recebe R$ 720 por mês, além da cesta básica, plano de saúde e vale-transporte. “Já trabalhei como coladeira de peças, auxiliar de produção e chanfradeira e não troco esse serviço de jeito nenhum. Gosto do que faço e recebo um salário justo”.
Cláudia também trabalha em um dos principais motéis de Franca há três anos e lá já exerceu outras duas funções: camareira e cozinheira. “Camareira é a minha preferida. Não tem nada de nojento como as pessoas pensam, um ou outro cliente que abusa, mas na maioria das vezes é tranqüilo, sem contar que é diversão total. Ser recepcionista tem que mexer com dinheiro e atender clientes chatos, não gosto muito não”, confessa.
DO OUTRO LADO
Em uma sociedade ainda conservadora, o maior problema para as mulheres que tentam trabalhar como recepcionistas de motel é o preconceito. Muitas vezes manifestado por elas mesmas, pelos familiares, pais e companheiros machistas. “A minha família não gosta muito não, meu pai está acostumado agora, mesmo assim não me busca no serviço caso eu precise”. No caso de Cláudia, a “briga” foi com o marido. “No começo ele criou caso, mas depois viu que não tinha perigo e parou de falar”.
Além do preconceito, o medo de ser reconhecido também afasta as pessoas. “Às vezes vou comprar alguma coisa e preciso mostrar o holerite. As vendedoras ficam preocupadas e um pouco sem jeito. Devem pensar que eu as vou reconhecer depois. É uma situação bem chata”, disse Natália.
Mas não pense que por não exigir formação específica qualquer pessoa serviria para trabalhar em um ambiente como os motéis. As fofoqueiras não são bem-vindas. É preciso discrição para guardar os segredos da profissão e não armar um barraco caso veja um conhecido com a amante. O puritanismo exagerado também é problema, afinal ali você vai ver e ouvir de tudo. “As pessoas não me vêem, mas eu as vejo perfeitamente. Reconheço muitas delas, mas não fico julgando ninguém. Quando é alguém que conheço e não gostaria que a pessoa descobrisse, peço para outra pessoa atender e pronto. É preciso jogo de cintura para contornar as situações”, disse Cláudia.
*Nomes fictícios
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