A médica Aniete Renom Espiñeira não era nascida quando o ex-presidente Fidel Castro tomou o poder em Cuba, derrubando, com uma revolução socialista, o ditador Fulgêncio Batista. Na verdade, em 1959, ela não era nem projeto. Mesmo sua mãe, a também médica Guadalupe Espiñeira González, ainda era uma criança, com 8 anos de idade.
Depois de 50 anos desde que os irmãos Castro - Fidel primeiro, depois Raúl - passaram a ditar os rumos da ilha mais comentada do mundo, as duas mulheres têm uma história diferente da de seus conterrâneos para contar, mas igual à de uma massa de imigrantes que, por inúmeras razões, deixaram Cuba para trás.
Morando em Franca, mãe e filha vieram por motivos muito particulares. Aniete, ou doutora Ane, como os pacientes a chamam, tem consultório na cidade, atua na Santa Casa e cursa doutorado na Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto.
Aniete trocou de país e de cultura depois que conheceu seu marido, Keller Oliveira Rosa, francano que fora a Camaguey estudar medicina.
A mãe, Guadalupe, professora aposentada de oftalmologia, seguiu o mesmo caminho. Sem a filha única e sem a presença do marido, também professor de medicina do Instituto Carlos J. Finley, um renomado centro médico daquele país, fez as malas, chegando ao Brasil em março de 2003.
Numa conversa de final de tarde, a filha do casal Espiñeira dedicou-se a falar do processo de adaptação ao Brasil, de como vê o País que a acolheu e dos brasileiros. A mãe, Guadalupe, pouco parou para atender à reportagem, ocupada que estava com as gêmeas Amanda e Lorena, netas de 1 ano e três meses, filhas de Aniete.
Mas foi ao falar de Cuba que ambas deixaram transparecer o que outros cubanos, em outras situações e lugares, já mostraram: o apego ao país de origem é forte, a tal ponto de as duas repetirem durante toda a entrevista a palavra “triunfo”, ao se referirem à tomada de poder por Fidel Castro. Em nenhum momento, nenhum sentimento de amargura ou desilusão com o regime, agora capitaneado por Raúl Castro.
Aniete e o marido, Keller, conheceram-se na faculdade onde estudavam, em 1995. Três anos mais tarde estavam casados. Em 2001, após um trâmite rápido, ao qual a maioria da população cubana não tem acesso, seu pedido para deixar o país natal para fixar-se no Brasil foi aceito.
Em março de 2002, a jovem médica chegava com o marido a Franca. Um ano depois, chega a mãe, Guadalupe.
Já no Brasil, as dificuldades começaram quando ela tentou trabalhar com endocrinologia, sua especialidade. As instituições brasileiras não reconheciam o diploma cubano, mesmo sendo Cuba uma referência mundial em medicina.
Provas em Cuiabá, na Universidade Federal do Mato Grosso, exames de língua portuguesa em Campinas e o primeiro trabalho veio como médica da família em Patrocínio Paulista. “Os primeiros meses no Brasil foram de choros diários. Minha vida foi voltada para o estudo da medicina e quando cheguei aqui recebi a notícia de que não poderia trabalhar”, disse ela.
Do trabalho em Patrocínio, Ane conseguiu entrar na Santa Casa de Franca, mais ou menos ao mesmo tempo em que montava seu consultório.
A bela casa em que a família mora em Franca está, segundo a doutora Aniete, “20 vezes” acima do padrão de uma família cubana. Apesar das restrições impostas pelo governo à população, ela fala com saudade do país que deixou e que visitou pela última vez em 2004. “Você sente vontade de cheiros que não encontra aqui, dos barulhos da sua rua, do falar, da música que o vizinho coloca, suas coisas. Mas me sinto brasileira e gostaria de fazer parte de uma massa compromissada em tornar este País melhor”.
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